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O infinito talento.

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Luciano Pires -

Ontem me lembrei de um discurso de Ruy Barbosa no Senado, em 1914, que talvez você já conheça, mas que vale repetir:

“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar das virtudes, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.

Cem anos atrás… Mas parece falar do Brasil de hoje, não é?

Ora bolas, se é assim então, talvez devamos entender – e aceitar – que as crises atuais, que julgamos serem as mazelas do Brasil, de atuais nada têm. São parte da natureza humana, sempre existiram, sempre existirão enquanto os seres humanos estiverem interagindo por aqui e alhures. E se é preocupante a existência de pessoas com valores morais discutíveis ou portadoras de incompetência obsessiva em posições de poder, o que preocupa de verdade é a falta de evolução na forma como nós, o povo, tratamos esse assunto. Definitivamente nos acostumamos com o malfeito, como constatou Ruy Barbosa um século atrás. E isso me parece uma estagnação. Ou até mesmo involução.

Muita gente assiste neste momento, fingindo que não é com ela, várias lutas nos tribunais para barrar candidatos que têm a ficha suja. Mesmo os que têm culpa no cartório, que já foram condenados na forma da lei e que deveriam ser despachados sem mais discussões, estão apresentando recursos e teimando em continuar na peleja. Paulo Maluf, por exemplo, só foi cassado pelo voto de Minerva do presidente do tribunal, depois que seis juízes, apesar das provas irrefutáveis apresentadas, empataram em 3 a 3. Eu disse juízes e não zés manes da esquina.

Em Brasília, o ex-governador Arruda, com a ficha encardida de tão suja, aparece na frente nas pesquisas de intenção de votos! A todo momento surge na televisão cheio de sorrisos e promessas, enquanto se discute sobre a cassação de seu direito de se candidatar. E o mesmo se repete em praticamente todos os estados: gente sem honra, injusta e má na televisão fazendo cara de pessoa legal e pedindo votos.

E sofro ao imaginar que provavelmente grande parte dessa gente se reeleja.

Ah, sim, tem os candidatos a presidente! As campanhas são um desfile de acusações, cada um tentando expor mais os podres dos outros. Até um ponto em que o povo, anestesiado, parece não mais se importar com a desonra, a injustiça e a maldade. Se todos são podres, talvez podre seja o padrão!

Será que Ruy Barbosa perdeu seu tempo? Será que o povo não aprendeu com o passado? Ou melhor, aprendeu sim, a desanimar das virtudes, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto?

Concluo que muito mais que a valorização da honra, da virtude e da honestidade, a verdadeira habilidade que desenvolvemos em 100 anos foi o sistemático, onipresente e infinito talento para a cara de pau.

Meu, seu, deles.

Se a carapuça não servir, não se preocupe. Não estou falando com você.