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LíderCast 124 – Sidnei Alcântara Oliveira
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Uma discussão sobre inteligência artificial na educação
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O Estado brasileiro, desde 1500, tem se esmerado em atravancar qualquer mecanismo da administração pública com um emaranhado de processos burocráticos de alta complexidade, difícil interpretação ...

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Cafezinho 104 – A greta
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Dois meio Brasis jamais somarão um Brasil inteiro.

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O Garimpeiro

O Garimpeiro

Luciano Pires -

Achei! Num sebo, a coleção completa da enciclopédia “Conhecer” que a Editora Abril lançou no final dos anos sessenta. Linda, novinha… Eu não estava procurando, mas foi irresistível. Voltei pra casa com doze volumes mais três “dicionários” e um frio no estômago.

Quando cheguei preparei minha viagem. Sim, a lembrança que eu tenho de minha experiência – aos onze anos de idade – com aquela enciclopédia era de viajar. Pelo tempo e pelo espaço, sem limites de lugares ou assuntos. Afinal, a curiosidade é o atributo mais presente numa criança de onze anos de idade, não é? A Abril Cultural lançou em 1967 a enciclopédia Conhecer em fascículos que eram colecionados até formar um volume da coleção. Então eles lançavam a capa que a gente comprava e levava para um encadernador que nos devolvia um belo livro vermelho sangue com o nome “Conhecer” em dourado. Um mundo de conhecimento com cerca de 4 mil páginas!

Passou a ser rotina aguardar ansioso a chegada do novo fascículo. Que assuntos seriam abordados? E os caras da editora eram espertos, viu?. Num mundo dominado por enfadonhas enciclopédias em preto-e-branco com muito texto e pouquíssimas imagens, a “Conhecer” vinha repleta de ilustrações dramáticas, enormes e coloridas. Cada página virada revelava uma explosão de cores! E o que acontecia então eu relatei no texto “Quirópteros” em meu livro Brasileiros Pocotó:

“Eu tinha 12 anos. E minha professora de Ciências pediu um trabalho escolar sobre Quirópteros: a ordem dos morcegos. Comprei cartolina (lembra-se?). Pincel atômico. Cola Tenaz (a grande novidade que substituía a goma arábica). E mergulhei na minha enciclopédia Conhecer. Para encontrar os Quirópteros, eu navegava pela enciclopédia, passando pela Grécia Antiga. Depois, pela história da Grande Muralha da China. Pelos dinossauros. Por como funciona um navio. Pelos satélites artificiais… Motivado pela curiosidade infinita de criança eu viajava pelas páginas, pelas ilustrações multicoloridas, durante horas. Até achar os tais morcegos. Aí, copiava o texto, recortava revistas, colava na cartolina, e, na segunda- feira, levava aquela coisa amassada para a escola e via a professora examinar e me dar a nota. Era assim o processo. E nunca mais esqueci o que são Quirópteros. Ou como funciona um navio. Ou como morreram os dinossauros…”.

Sem perceber, como um garimpeiro eu estava aos poucos juntando um tesouro que seria fundamental para meu futuro: conhecimento. Cada parada naquelas páginas da Conhecer dava-me uma pepita que eu colocava em meu repertório. Que sorte a minha.

Pois refletindo sobre essa garimpagem e a diferença dos processos de hoje que – após o surgimento da internet e de “São” Google – levaram quase ao infinito nossa capacidade de buscar informações, dei de cara com uma contradição.

A curiosidade daquele garoto só podia ser saciada por ele ter um estoque praticamente ilimitado de… tempo. Eu podia investir o tempo que quisesse em minhas viagens pela enciclopédia. E assim montei meu tesouro.

Hoje, quarenta anos depois, “tempo” passou a ser meu ativo mais escasso. A internet me dá a oportunidade de otimizar meu tempo. Encontro em segundos o que preciso! Sou um garimpeiro supersônico! Que sorte eu tenho! Mas não tenho tempo…

Não posso desviar minha busca dos Quirópteros para mergulhar fundo na vida de um dinossauro colorido. Ou no telescópio Hubble. Ou no Timor Leste. Preciso ir direto ao ponto. Rápido. Sou um garimpeiro supersônico. De superfície. Mergulho no raso, dou uma olhada e volto correndo. O telefone está tocando. Alguém está me esperando…

Minha nova enciclopédia Conhecer está ali, na minha frente, linda.

Esperando que eu tenha tempo pra ela.