
Enquanto pesquisava material para uma palestra, revi vários trechos de programas dos Trapalhões no Youtube. Fascinantes! O programa, dirigido ao público infantil, tinha o Mussum, um cachaceiro assumido que não perdia a chance de dizer que tinha tomado todas. Tinha o Zacharias, um personagem maravilhoso cuja masculinidade – num tempo em que “sair do armário” era muito mais complicado que hoje - sempre foi uma incógnita. O Didi passava o tempo criando formas de tapear os outros para levar vantagem e não tinha o menor problema em partir para a agressão, no melhor estilo dos desenhos animados ou dos Três Patetas dos anos 50. E o Dedé sempre sofreu aquilo que hoje chamamos de “bullying”. As mulheres, sempre gostosonas, eram objeto de “cobiça carnal” todo o tempo. Não haveria espaço para os Trapalhões na televisão de hoje. O politicamente correto os liquidaria...
O problema do politicamente correto ou incorreto está nos extremos. O extremo do politicamente correto é a censura, o patrulhamento, a hipocrisia, a imposição de um jeito de ver o mundo, a tentativa de reescrever o passado ou de tomar decisões no presente com base num futuro perfeito que jamais chega. O extremo do politicamente incorreto é a falta de educação, o patrulhamento, o desrespeito a direitos básicos de outras pessoas, a falta de responsabilidade. Os dois extremos são errados e temos dezenas de histórias de gente que se deu muito mal, perdendo até mesmo a vida, ao sofrer patrulhamento de um lado ou de outro.
Recentemente surgiu uma polêmica envolvendo os humoristas Rafinha Bastos e Danilo Gentili, do programa CQC, que fizeram piadas relacionadas a estupros (“mulher feia deveria agradecer por ser estuprada”) e a judeus (“não querem discutir o metrô, pois o último vagão em que entraram os levou para Auschwitz”). As piadas foram consideradas preconceituosas e racistas e voltou com força o embate entre o “politicamente correto” e o “politicamente incorreto”.Muita gente pode achar que o humor de Rafinha e Danilo é ruim, mas “competência” não vem ao caso neste momento. Como os Trapalhões, os dois são humoristas, trabalham com deformações da realidade para produzir graça ao chocar as pessoas. Se a realidade é feia, eles a fazem mais feia ainda. Eu sei como é, também trabalho com humor. Comecei a publicar charges e cartuns em Bauru nos anos setenta, aos 18 anos, fascinado pelo mundo do cartunista, onde animais falam, canetas andam, tudo tem vida. O humor lida com o ridículo, com o grotesco, com o inusitado, com o desvio. No mundo do humor tudo é possível, inclusive o correto politicamente incorreto...
Morrerei defendendo o direito de qualquer artista da palavra, do desenho, da pintura, do teatro, da música ou de onde for, se expressar sobre qualquer tema, sem censura, sem patrulhamento. O humor libertário, irreverente, agressivo e necessário pode ser praticado de várias formas, inclusive com grosserias, sem que isso necessariamente o invalide ou gere censura.
No entanto, eu jamais faria as piadas que Rafinha e Danilo fizeram, por uma razão muito simples: para meus padrões morais, aquelas piadas são de mau gosto. Adoro quando humoristas são raivosos, irreverentes, imprevisíveis e não perdem uma piada, mas não gosto quando são mal educados. Não censuro, mas não gosto.
Falta de educação não deve ser confundida com politicamente correto ou incorreto.
É outro departamento.
Luciano Pires
