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Luciano Pires -

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Champinha é o apelido de Roberto Aparecido Alves Cardoso, que em meados de 2005 chocou o Brasil ao liderar o assassinato do casal de namorados Liana e Felipe, que acampavam na região do Embu, em São Paulo. A descrição da tortura e do assassinato de Liana é uma das peças mais aterradoras que já li. Felipe foi morto às 8h de um domingo. Liana foi degolada na quarta-feira, às 3h. Preso, Champinha confessou os crimes e afirmou, sem remorso: “Matei porque senti vontade de matar.” Pobre e filho de pai alcoólatra, Champinha estudou até a terceira série do ensino básico. Aos 14 anos, principalmente pela falta de medicamentos, começou a sofrer convulsões. E saiu de casa, passando a viver nas ruas de Embu-Guaçu, prestando serviços a quadrilhas especializadas no desmanche de automóveis roubados. Sempre com um facão na cintura, transmitia medo aos vizinhos. Aterrorizava as vítimas fazendo roleta-russa: apontava a arma contra a cabeça da pessoa, girava o tambor com apenas uma bala e apertava o gatilho. Chegou a cortar parte do dedo de um comerciante que se recusou a entregar dinheiro durante um assalto. Também é acusado de ter matado um caseiro antes do assassinato de Liana e Felipe.
Champinha tinha 16 anos quando praticou a barbaridade contra o casal de namorados. Foi preso e recolhido à Febem onde se submeteu a uma bateria de exames psicológicos que determinariam seu destino. O psiquiatra forense Bruno Montari Ramos emitiu o primeiro laudo. Lê-lo é também um exercício aterrador, que demonstra como a frieza do técnico transforma um fato absurdo numa planilha insensível. Bruno Ramos escreveu que: “Se ele vive com pessoas bêbadas, vai virar um bêbado. Mas, se for para um mosteiro, será um monge”.”… ele é treinável e educável. Mas é capaz de chegar, no máximo, até a terceira série do Ensino Fundamental”. “A moça foi assassinada no primeiro golpe, que atingiu a jugular. Pelos testes, ele deu as demais facadas porque ficou inseguro, queria ter certeza que ela estava morta. Não estava dando as facadas por prazer, mas por dúvida”. A conclusão de que Champinha é “treinável e educável” e sentiria culpa pelo crime praticamente elimina a chance de mantê-lo longe do convívio social. Ele tem que ficar em liberdade…
Esse laudo deixou indignado outro psiquiatra forense, Guido Palomba, que concluiu que Champinha sofre de encefalopatia, apresentando diminuição da inteligência, o chamado retardo mental, distúrbios de comportamento, e sintomas e sinais ligados a epilepsia.
Segundo ele, é provável que essa patologia tenha origem em partos difíceis, quando há falta de oxigênio no cérebro. Guido afirma que Champinha é uma pessoa perigosa, provavelmente irrecuperável, porque apresenta uma deformidade orgânica e, por isso, não pode voltar a conviver em sociedade. Por conta da polêmica, o Conselho Regional de Medicina abriu uma sindicância. O caso está na Câmara Técnica de Psiquiatria Forense e ainda não tem conclusão. E em 9 de dezembro de 2006, ao completar 18 anos, Champinha pode voltar às ruas. Com a ficha limpa.
Pô, não parecem engenheiros discutindo cálculo estrutural? Ou economistas debatendo a melhor forma de calcular a inflação? Ou padeiros tratando da melhor receita para fazer pão?
Não entendo nada de psicologia, gostaria sinceramente de receber emails de conhecedores do assunto comentando essa situação. Por enquanto, o que fiz foi conversar com outras pessoas sobre o tema. Falei com o vigilante de um estacionamento, o Zé. Ele disse que o que tem é medo.
Perguntei se era medo por saber que a burocracia e a tecnicidade estão decidindo o futuro de um assassino. Ele disse que não.
Perguntei se era medo de que a justiça estivesse amarrada. Ele disse que não.
Perguntei se era medo de que o crime estivesse tomando conta da sociedade. Ele disse que não.
– Medo de quê então, Zé?
– Tenho medo de encontrar com ele.