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Precisamos reaprender a olhar
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Cafezinho 95 – Banco traseiro
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Nossa Novilíngua

Nossa Novilíngua

Luciano Pires -

“A melhor maneira de ocultar a verdade é usar um português obscuro, ambíguo, diz minha amiga Jussara Simões.

Quer um exemplo?

O Portal Imprensa publicou que UOL, Terra e Globo decidiram notificar a Rede Record por supostamente distorcer os dados do Ibope para classificar www.R7.com.br  como o segundo maior Portal do Brasil. No final do texto, os jornalistas escreveram: “Procurada pela reportagem, a Rede Record afirmou, por meio de sua assessoria, não ter recebido qualquer notificação.”.

Hummm… a Record não recebeu “qualquer” notificação? Mas pode ter recebido uma notificação “específica”, não é? E se ela recebeu a notificação específica, não mentiu aos jornalistas quando disse que não recebeu uma notificação “qualquer”, compreendeu?
Escrevendo “não recebemos qualquer” eles podem estar dizendo “recebemos uma”. Um pequeno truque do português ambíguo que pega muita gente que confunde “não + qualquer” com “nenhum”.

George Orwell descreveu em sua obra-prima “1984” um mundo dividido em três grandes blocos: a Oceania, a Lestásia e a Eurásia. Na Oceania, composta pelas Américas, Inglaterra, Sul da África e Austrália, o idioma falado pelos cidadãos era o inglês. Mas todos os documentos eram escritos em “novilíngua”, o idioma oficial do Partido.
O conceito da novilíngua baseia-se na noção de que, no processo de pensar, traduzimos os pensamentos em palavras, manipulando-as num diálogo interno. Quando surge um tema complexo e novo, inventamos novas palavras ou adaptamos antigas, de forma a enriquecer nossa capacidade de dialogar mentalmente. Portanto, quanto mais rico nosso vocabulário, maior a capacidade de fazer comparações mentais sutis. E tirar ricas conclusões.
Para os criadores da novilíngua, se alguma coisa não pode ser expressa numa palavra, fica mais difícil de pensá-la. Portanto, a proposta era reduzir o vocabulário para diminuir a capacidade dos indivíduos de desenvolver pensamentos que conflitassem com os interesses do governo. E a cada nova edição do dicionário da novilíngua, menos vocábulos estavam presentes. No livro de Orwell, o Partido esperava que até 2050 a novilíngua substituísse o inglês como idioma corrente. A novilingua promovia o “duplipensar”, um estado mental em que dois pensamentos excludentes entre si conseguem coexistir.

Muito bem. Vivemos numa sociedade onde nenhum valor moral é mais importante que a troca de nosso dinheiro (ou poder) por algo que alguém quer nos vender. Seja um saco de arroz, uma religião ou um político. Nesse ambiente competitivo, se os argumentos dos “vendedores” são verdadeiros ou não, não têm importância, contanto que sejamos persuadidos. E uma das armas principais para nos convencer é exatamente a novilíngua e o duplipensar, que saltaram da ficção de Orwell para a realidade.

Hoje em dia, como nunca antes neste país, malabarismos lingüísticos fazem com que um sim signifique não. E pouca gente percebe. É assim que se abre caminho para um programa de proteção aos direitos humanos que cassa direitos humanos. Ou um chamado “Comitê da verdade” que só quer a verdade de um lado. Ou o caixa dois transformado em “recursos não contabilizados”. Ou uma “promoção” que custa mais caro. Ou o corrupto que é apresentado como grande político. E assim por diante.

O próprio George Orwell escreveu: “Se as idéias corrompem a língua, a língua também corrompe as idéias”.

Por isso enriquecer o vocabulário não serve só para falar bonito.

Serve para pensar direito.