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Luciano Pires -

No Brasil não é mais o mérito que determina o valor das pessoas, mas sua ideologia, sua cor, sua raça, sua condição física ou social. Falar bem o idioma é motivo de piada. Ser elite é quase uma maldição. Música de sucesso é a mais escatológica. O homem honesto aparece na televisão como algo excepcional. Roubar é normal. Bala perdida é normal. Corrupção é normal.

Vivemos uma inversão de valores sem precedentes e é contra esse estado das coisas que devemos gritar.

Meu grito começou em 2003 quando lancei o livro “Brasileiros Pocotó – Reflexões sobre a mediocridade que assola o Brasil”, iniciando uma luta pela “despocotização”do país.

“Despocotizar” vem de “pocotizar” que vem de “pocotó”… Criei esse neologismo a partir do funk “Eguinha Pocotó” que infestou as rádios e televisões do Brasil neste começo de milênio.

Uma pessoa pocotó é um bovino resignado que vive em manadas e é levado para onde os mais espertos querem. Alguém decide o que ela vai ler, comer, ouvir, vestir e… quem eleger! Sempre conformado e obediente, o pocotó não tem espírito crítico. Diante da oportunidade de escolher, prefere seguir a multidão. O pocotó é o representante daquele atributo que faz parte da natureza humana e que existirá enquanto houver um ser humano vivo: a mediocridade. O desafio é saber reconhecê-la e lutar para escapar dela.

Pois bem, passados seis anos desde que lancei o Brasileiros Pocotó, a impressão é que a coisa piorou. Os pocotós ficaram mais desinibidos, mais poderosos e perigosos. O Brasil mergulhou numa mistura de ideologia barata com comércio, oportunismo e ganância, que está empurrando o país para um buraco intelectual de onde penará a sair.

E é a partir dessa constatação que estou preparando o lançamento de meu novo livro: NÓIS. O título fica mais expressivo se for acompanhado do subtítulo: NÓIS QUI INVERTEMO AS COISA.

E antes que os linguistas – principalmente os que utilizam a linguística como ferramenta para pregação marxista – caiam de pau, devo informar que o “nóis” que escolhi como título não é aquele curioso jeito de falar do matuto, inocente e representativo de uma cultura. Não é o “nóis” que designa a primeira pessoa do plural. Não é o termo que indica um grupo de pessoas unidas pelo mesmo sonho, mesmo objetivo, mesmo ideal. O “nóis” que escolhi é resultado de um longo processo de incompetência educacional, indigência cultural e desfaçatez política. Escapa do informal para invadir o formal. Traz consigo atitudes, valores e convicções rasas. Abriga o pior do popular. O “nóis” que escolhi é aquele que vulgariza, diminui e empobrece. É o “nóis” transformado em ferramenta ideológica, em ícone de luta entre classes, em padrão de dignidade. Não é o “nóis” humilde. É o “nóis” burro. O “nóis” que revela a verdadeira miséria do Brasil: a intelectual.

Meu novo livro trata do emburrecimento nacional. É minha peça de resistência, para compartilhar com outros brasileiros as angústias e perplexidades que mantém nosso gigante eternamente adormecido.

São 284 páginas com textos inéditos e revisões e atualizações de artigos que publiquei desde 2004 e que, quando colocados em conjunto, ilustrados com meus cartuns e contextualizados, formam um painel destes tempos sob a ótica “Luciânica”.
São textos curtos. Apenas “iscas” cuja pretensão é fazer você refletir. Só. Quer ir mais fundo? Vire-se. Pesquise, leia, vá atrás dos grandes pensadores, estude, invista seu tempo enriquecendo seu repertório. Eu só levanto poeira, é um bom começo neste país de ressentimentos passivos.

No mais, concorde, discorde, fique puto, ria, desdenhe, reflita… Qualquer reação que minhas reflexões provocarem, será lucro.

Só a indiferença é perigosa. É ela que alimenta os Pocotós.