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Luciano Pires -

Escrever sobre Natal – no Natal – é uma obrigação. Mas com o tempo a gente meio que esgota o assunto. Apesar disso, em minhas pesquisas encontrei uma frase genial da escritora e humorista estadunidense Erma Bombeck:
– Nada é mais triste neste mundo do que acordar numa manhã de Natal e não ser criança.
Pronto. Bastou para me abrir um turbilhão de lembranças… Engraçado como o melhor Natal de nossas vidas é sempre um daqueles quando éramos crianças, não é? Parece que depois o Natal perde a graça. E acho que perde mesmo. Lembro-me de um em especial. O ano era 1966. Ou 67. Eu acabara de colocar meu primeiro par de óculos. Desde os oito anos eu percebia nas missas de domingo que cada vez ficava mais difícil enxergar a cara do padre. Afinal, lá em Bauru a igreja Santa Terezinha era gigantesca para uma criança que sempre sentava nos bancos lá do meio. Devia ter uns cinqüenta ou sessenta metros até o padre. Reclamei pra minha mãe e lá fui eu pro oculista. Interessante: a maioria das pessoas com quem converso diz que descobriu em sala de aula que precisava usar óculos. Comigo foi na missa… E hoje, quando vejo as fotos da época, fico com vergonha. Minha mãe comprou uma armação horrível, gigantesca. E as lentes eram verdes. Fiquei com uma cara de não sei o quê.
E então chegou o Natal. Meus natais sempre foram especiais, passados em família – e que família – na casa de meus avós maternos. Seu Duarte e Dona Dora recebiam filhos e netos para pelo menos três dias de bagunça. Quando eu tinha dez anos, devíamos ser vinte pessoas. Todos os adultos davam presentes pra todas as crianças. Era uma festa! Mas naquele ano a coisa foi diferente. Só ganhei presentes que crianças detestam: meias, cintos, lenços… Fiquei frustradíssimo. Meus primos com brinquedos, todo mundo feliz e eu emburrado. Findo o jantar, voltamos pra casa. E eu não me conformava. Outro Natal, só dali a um ano. E eu com aqueles presentinhos mequetrefes…
Quando chegamos em casa, meu pai estranhamente pediu que eu fosse na frente para acender a luz do quarto. Não lembro que argumento ele usou, mas fui. Quando abri a porta de meu quarto, todo escuro, senti um cheiro forte de coisa nova. Acendi a luz e lá, bem no meio, havia uma maravilhosa bicicleta. Uma Monareta vermelha e branca, a bicicleta mais linda que já vi na vida. Com um desenho diferenciado, rodas pequenas e aparência mais robusta que as bicicletas tradicionais, a Monareta era o sonho de qualquer garoto. E ali estava a minha. O Natal que se configurava o maior mico transformou-se para mim no melhor Natal de todos os tempos. Quando penso em Natal, me lembro daquele momento.
No dia seguinte acordei mais cedo, agitado. E corri encher o pneu da bicicleta para inaugurar meu presente. Saí da garagem com cuidado, pois eu ainda não me entendia muito bem com bicicletas e fui me equilibrando como pude. Quando cheguei próximo da esquina perdi o equilíbrio e quase fui ao chão. Tive que fazer uma manobra estranha para não cair. Um garoto que vinha passando assistiu a cena e gritou:
– Vai ô quatro-olho!
Naquele momento meu melhor Natal acabou. Fui cuspido de volta para a realidade, para encarar a verdade terrível: eu usava óculos! Era um “quatro-olho”, motivo de piada pelo resto da vida. Não sabia que no futuro as coisas mudariam e usar óculos seria “fashion”. Até quem não precisasse pagaria uma fortuna para ostentar um “Armani” sobre o nariz. Um dia escreverei a respeito.
Agora quero voltar pra minha Monareta. É dela que quero lembrar.
Enquanto isso deixo com você, como presente de Natal, uma outra frase. Esta eu não sei quem escreveu, mas é tão genial quanto a que usei para abrir este texto:


“Uma das coisas legais do Natal é que você pode fazer as pessoas esquecerem o passado com um presente.”


Feliz Natal.