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Luciano Pires -

Segunda metade dos anos setenta, festinha com a turma da faculdade na casa do Waltinho. Com os pais dele viajando. O pai do Waltinho tinha uma adega particular com vinhos de primeira, que decidimos experimentar.
Abrimos a primeira garrafa. Faz tempo demais pra eu lembrar a marca, mas era um tinto italiano maravilhoso. A molecada surtou. Tomar aquele vinho era pra nós – duros – um evento! Que sabor. Que elegância. Nos sentimos os tais e mandamos ver, enquanto fazíamos uma rodinha de som, cantando e bebendo. Foi-se a primeira garrafa. E a segunda. Que vinho! E assim continuamos. Pelas minhas contas, já tínhamos desfalcado a adega do pai do Waltinho em sete garrafas… Como é que ele ia explicar ?
O Waltinho dizia “não se preocupem”, enquanto o Mané trazia outra garrafa. O Mané era uma figura, um japonês chamado Manoel. Era ele quem trazia da cozinha o vinho que tanto nos agradava.

E então eu reparei…

A garrafa vazia nunca ficava na sala. O Mané pegava a bichinha e ia pra cozinha, de onde voltava com outra garrafa cheia… e aberta. Não falei nada pra ninguém, só segui o picareta até a cozinha pra vê-lo entornando um garrafão de “Sangue de Boi”  dentro da garrafa de vinho italiano.. Só a primeira rodada foi do italiano de verdade. Dali em diante, só “Sangue de Boi”, que os “experientes” garotos de vinte anos achavam o máximo…

– Mané, como você é sacana!

E o Mané, sorrindo:

– Vem me ajudar.

Entrei no jogo e também comecei a servir o vinho “ïtaliano”. Mas não servia apenas. Puxava assunto…

– E aí, tá bom?

– Excelente!

– Sentiu o buquê?

– Ah, isto é uva de primeira. Também, né? Italiano…

E assim foi. Todo mundo tomando “Sangue de Boi” e desbundando com a qualidade fantástica do “italiano”.

Lembrei dessa história anos depois, ao viver uma experiência com vinhos junto à turma de meu filho, que tinha seus 20 anos. Os moleques tomavam um vinho de oito reais…

– Ninguém tem grana pra comprar melhor, pai. Vai esse mesmo.

Abri então um vinho de primeira. Um gaúcho daqueles de tomar de joelhos. E servi pra molecada.

– Que tal, moçada?

– Hummmm… Excelente, tio. Muito bom mesmo.

– Tá vendo? Isso é que é vinho, não essa porcaria que vocês tomam!

– É verdade, tio. Mas vamos continuar com nosso vinhozinho de oito reais. Não queremos qualidade. Queremos quantidade…

Pois é… Saber gostar de vinho é uma questão cultural. Entender de onde vem e como é feito, saber das combinações das uvas, muda nossa percepção. O conhecimento faz com que tomemos vinho com os cinco sentidos. E então o milagre acontece: passamos a apreciar a qualidade mais que a quantidade. E o mais importante: aprendemos a encontrar jóias mesmo entre os vinhos baratos!

O mesmo acontece com música. Com literatura. Com cinema. Com artes plásticas. Com poesia. Com…

Se daquilo que consome você só conhece o preço, vai ficar nas mãos dos manés.