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Luciano Pires -

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A primeira cena foi assustadora. No Pacaembu, no final do jogo Corinthians e River, cerca de 300 marginais vestidos com camisas da torcida do Corinthians tentaram invadir o campo. E trinta policiais seguraram os marginais. No peito. Eu gritava diante da televisão: cadê as bombas? Cadê as bombas? Felizmente a polícia agüentou o tranco e não permitiu a invasão do campo. Foram heróis. Aí veio aquela segunda feira fatídica do PCC. As cenas eram ainda mais assustadoras. Um boné da polícia, estraçalhado por um tiro. Uma poça de sangue na calçada. Dois corpos, do policial e de sua namorada, estendidos no asfalto. Dessa vez a polícia não agüentou o tranco. Foi pega de surpresa. Até um bombeiro morreu. E numa das cenas de enterro, meus olhos marejaram. Foi uma explosão emotiva, o transbordamento de sentimentos que me angustiaram durante todo o dia. Minhas lágrimas misturaram-se às da viúva, da mãe e do filho do policial morto. Mas não eram só lágrimas de tristeza. Eram de angústia. Da repentina sensação de… Medo.


Logo depois vem o MLST, invadindo o prédio da Câmara em Brasília e promovendo aquele quebra-quebra. As imagens de uma moça, que de sem terra nada tinha, destruindo violentamente os terminais de computadores me deixou atônito. E a cena do segurança desabando após ser atingido por uma pedrada na cabeça, foi surreal…


Muito bem. E quando a emoção passou, veio a reflexão.


Vivenciamos naqueles dias o horror gestado durante anos. Não vou ficar aqui chorando a obviedade dos péssimos salários da polícia, a falta de recursos, o fosso da educação… Isso é mero resultado da burrice, da incompetência e do amadorismo das autoridades que acham que nos dirigem. Difícil mesmo é suportar o intelectual, o político, o jornalista apontando o dedo para mim e dizendo, nas entrelinhas ou escancaradamente: “A culpa é sua. Você é a elite que marginaliza o povo. Agora agüente”.


Não me conformo com essa atitude irresponsável. Temos um problema imediato de falta de disciplina, de desordem. Temos bandidos, e não “vitimas da sociedade” de um lado. E incompetentes e oportunistas do outro. No meio, só temos vítimas. Eu, você e o policial caído na calçada. É simples assim. Transferir o ônus para as instituições, para “azelite”, é a forma mais confortável de livrar-se da responsabilidade. O político deveria olhar para seus atos, para seus conchavos, para sua incapacidade de produzir leis que garantam a segurança da sociedade. O jornalista deveria olhar para seu poder como formador de opinião, como definidor das pautas de discussão, como instrumento de pressão para que ocorram mudanças. E o intelectual… Bem, o intelectual deveria amadurecer, tirar a bunda da cadeira – como recomendou um dia o filósofo Luis Inácio -, abandonar os discursos antigos da inoperância e tentar transformar suas viagens teóricas em ação.


As instituições não têm culpa de nada. Quem tem culpa são os indivíduos que as compõem. Esses culpados precisam ter seus nomes afixados na porta do elevador, no outdoor, divulgados nos jornais e televisões, para que assumam as conseqüências por sua incompetência, má vontade, desonestidade ou burrice.


Desculpe o mau jeito, mas culpa minha, o cacete!