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Não É “Pobrema” Meu

Não É “Pobrema” Meu

Luciano Pires -

NÃO É “POBREMA” MEU

 Dias atrás foi inaugurado o Museu da Língua Portuguesa, nas instalações da Estação da Luz, em São Paulo. Imagine só, um museu dedicado à língua portuguesa…


Nossa língua é um patrimônio que a sociedade materialista trata com descaso, pois não tem valor aparente. Qualquer um fala. Não dá pra vender. Não dá pra alugar. Nem dá pra emprestar. E nem é preciso dar muita atenção a ela, pois mesmo falando errado nos fazemos compreender.


Não entendeu? “O pobrema” é seu. O ministro fala errado? Não é “pobrema” meu…


Será que nossa língua merecia um museu? E logo aqui no Brasil, onde coisas importantes são deixadas de lado?


A resposta me parece óbvia: merece e merecia muito antes…


Qualquer investimento focado em educação e cultura é primordial para este país de brucutus, que só consegue investir naquilo que enxerga. Ou que traz resultados imediatos. Mas… Será que o povo merece? Tenho minhas dúvidas.


Acho que, para ter valor, um museu que trata do idioma só tem sentido num país onde o povo tenha um mínimo de educação para entender e respeitar o que está visitando. Coisa que a maioria dos brasileiros não tem. E nessa maioria incluo gente com formação, gente rica, gente pobre, brancos, negros, amarelos, homens, mulheres, gays, heteros e tudo o que você quiser citar. A ignorância não é privilégio de um grupo. Está disseminada por toda a sociedade, com variações de grau. Mas presente.


Pois bem.


Estou indignado. Acabo de ler que o Museu da Língua Portuguesa foi fechado para manutenção, poucos dias após a inauguração. Puxa, será que estourou um cano d´água? Rachou o gesso do teto? Uma pane elétrica? Não.


A manutenção é para consertar o estrago que os visitantes fizeram, pisando onde não deviam. Arrancando partes de algumas obras. Sujando outras…


A manutenção se dá em razão do desleixo. Ou será da depredação?


E então? Será que as pessoas que visitam o museu, merecem o museu? Ah, mas quem depreda é uma minoria, dirão os mais apressados. É verdade… Mas e a maioria que vê a minoria depredando e se finge de morta?


– Não é “pobrema” meu!


Essa é a verdade de nossos dias: perdemos a capacidade de indignação. Ou de expressar nossa indignação. O sujeito fura a fila e eu fico quieto. O outro quebra o orelhão e eu fico quieto. Não é “pobrema” meu… E se eu falar alguma coisa sou capaz de ser vaiado pela maioria dos que preferem não se manifestar. Vão me chamar de estressado, de neurastênico… E se bobear ainda tomo um tiro do vagabundo.


Pois é…


E se fico quieto com as pequenas coisas que me atingem diretamente, você acha que vou gritar por causa de um deputado desonesto? Contra a fila de aposentados? Contra a baixaria na televisão? 


Eu não. Não é “pobrema” meu…


Pois assim que reabrir, vou visitar o museu.


Quero ver se tem lá a palavra “burro”.