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Não Acredito

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Luciano Pires -

NÃO ACREDITO

Era 1988. Meu filho tinha uns três ou quatro anos de idade e estávamos na piscina da chácara de meus pais em Bauru. Eu dentro d´água e ele do lado de fora, ensaiando saltar em meus braços, com todo o medo de quem experimenta uma situação de risco. Eu o incentivava e ele hesitava.



– Pula! Papai está aqui! Pode pular!



E então ele saltou. Voou pelo ar até cair na piscina, com o torso fora d´água graças às minhas mãos que o “salvaram”. E, passado o medo, o bichinho gostou da brincadeira.



– Di novo!



E lá ia ele correndo e saltando, cada vez com maior desenvoltura. Até que, num dos saltos, propositadamente deixei que ele caísse na água e afundasse uns centímetros. Puxei-o para fora e ele estava apavorado. Olhos arregalados, cabelo na testa, as mãozinhas na boca e agitando as perninhas…



– Calma, ta tudo bem, o papai está aqui!



Depois de choramingar ele voltou para os saltos. Mas não eram mais os mesmos saltos. A cada vez que ia saltar, parava e me perguntava:



– Você vai deixar eu cair?



Naquela piscina aprendi uma lição. Como é fácil destruir laços de confiança. Como é fácil incutir o medo na cabeça dos outros. Como é fácil alimentar o descrédito. Como fui um idiota…



Pois bem.



Agora repare como você está sendo treinado a não acreditar mais em coisa alguma. Como os elos de confiança que você tinha quando jovem, estão sendo quebrados, um a um. E sabe como? Com anos de decepções. Com a enxurrada de escândalos. A cara de pau com que as celebridades de todas as áreas aparecem na mídia contando mentiras. O desnudamento das técnicas de “dudificação” (neologismo que criei com o nome de Duda Mendonça), quando usam o marketing para nos convencer a comprar o que não queremos nem precisamos. Com os valores morais e éticos discutíveis da grande mídia e seus interesses econômicos. Com a exposição diária do lado torto da sociedade. Com a eliminação das referências… A cada fato ou momento desses, sinto-me como meu filho, traído, caindo na piscina. Sinto que estou me tornando descrente.



O jogador foi dispensado da copa por problema físico? Não acredito. Foi pela briga com um colega de time. O Major Pontes foi ao espaço para experimentos científicos? Não acredito. Foi jogada eleitoral. O PCC atacou para medir forças com a polícia? Não acredito. Também foi jogada eleitoral. O Brasil tem indicadores positivos? Não acredito. Nunca estivemos tão mal. A Globo é uma das redes de televisão mais profissionais do mundo? Não acredito. Manipula conforme seus interesses. Ladrão vai pra cadeia? Não acredito. Só ladrão pobre. Não acredito no Lula. Não acredito em FHC. Não acredito em Pelé. Não acredito no William Bonner. Não acredito na Heloisa Helena. Não acredito no Garotinho. Não acredito no Ronaldo. Não acredito na Hebe. Não acredito no padre. Não acredito no pastor. Não acredito no polícial. Não acredito no juiz. Não acredito no zelador. Não acredito…



Putz… no quê me transformei? Num ser que não acredita em mais nada? Que desconfia de tudo? Incapaz de entregar-se a uma causa em sociedade? A um objetivo em grupo? Afinal, alguém vai se aproveitar de minha confiança…



Você, por acaso, também se sente assim?



Que triste…



Pois quer saber de uma coisa?  Tem coisa na qual eu acredito sim. Acredito em mim. Acredito em minha família. Acredito nos valores que meus pais me passaram. Acredito que dá para contribuir para este país dar certo. E acredito que outros milhões de brasileiros acreditam nisso também. Brasileiros que não são trouxas. Que pensam e buscam o melhor. Que unidos podem mudar o futuro.



Mas eles andam tão calados…