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Quando visitei a Disney pela primeira vez, quase trinta anos atrás, fiquei impressionado com um dos pavilhões menos badalados do Epcot Center: o da Kodak. Logo ao entrar, assisti a uma apresentação audio-visual sofisticada na tecnologia, mas muito simples no conteúdo: fotografias singelas, sem efeitos, apenas mostrando pessoas no dia a dia. Me dei conta, emocionado, da importância que uma empresa pode ter na vida das pessoas. Havia ali uma história sendo contada, utilizando a tecnologia que George Eastman criou. Foi ele quem inventou o filme em rolo em 1884 e, quatro anos mais tarde, a primeira câmera “Kodak”. Era uma câmera quadrada e preta, de plástico. Eu tive uma…

Em 1892 nasceu a George Eastman Kodak Company seguindo uma estratégia clara: enquanto todo mundo fabricava câmeras, ela dedicou-se a fabricar filmes. E deu no que deu. Assim que começou a ganhar dinheiro, George transformou-se num dos maiores filantropos da história. Doou mais de 100 milhões de dólares (imagine quanto representava isso entre 1900 e 1930!) especialmente para a criação de institutos voltados à educação, tecnologia e saúde pública. Ele não queria publicidade e doou grandes somas ao MIT (Massachussets Institute of Technology) sob a alcunha de Mr. Smith…

Sofrendo com uma doença degenerativa na coluna vertebral, George Eastman suicidou-se em 1932, deixando um bilhete: “Meu trabalho está feito. Para quê esperar?”.

Em 1935 a Kodak lançou um filme com a marca Kodachrome. E o mundo ficou mais colorido, especialmente no cinema.

Onde está o verdadeiro valor do processo criado por George, que transformou o complicadíssimo ato de fotografar em algo simples, ao alcance de todos? Dê uma olhada numa foto que está em sua carteira, ou que você colocou aí sobre a mesa. É na capacidade que ela tem de acionar sua memória, de trazer à tona uma história, um momento, uma emoção, que está seu valor. George Eastman criou uma chave mágica para acionar nossas memórias, que seus marqueteiros brilhantemente batizaram de “momento Kodak”. Por isso a Kodak sempre foi mais que simplesmente uma empresa ou um produto, cumprindo um papel importante em minha vida. É nesses momentos que fico maravilhado com a capacidade criativa do homem.

Toco neste assunto diante da notícia de que a Kodak, atropelada pela tecnologia digital, pediu concordata. Eu poderia tratar aqui da miopia empresarial que levou a empresa à essa situação, mas quero falar de outra coisa: de magia. Um pouco dela já havia desaparecido quando a fotografia digital liquidou com aquele a ansiedade com que abríamos o envelope com as fotos reveladas sem saber direito o que iríamos encontrar. Me lembro do friozinho no estômago… Cada foto era uma surpresa! Comparado à fotografia digital aquele processo é caro, demorado e ultrapassado, mas a ansiedade era uma delícia.

Não pense que é saudosismo. É constatação: é assim que a humanidade evolui, substituindo o velho pelo novo.

As fotografias ficam, mas o fim da velha Kodak leva um mais pouco da magia embora.

Luciano Pires