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Minha Idéia, Minha Obra

Minha Idéia, Minha Obra

Luciano Pires -

MINHA IDÉIA, MINHA OBRA

Almocei num restaurante que passava nas telas de plasma o show “Kaia na gandaia” de Gilberto Gil. O show é uma homenagem ao reggae de Bob Marley. Gil canta e encanta, dança e ilumina. Uma delícia. Mas… Tinha gente com cara feia na mesa.

– Odeio o Gil.



Gil é ministro. É do PT. Portanto tudo que fizer deve ser execrado. Não interessa sua história como artista, seu valor como poeta, sua capacidade como músico e intérprete… Gil está contaminado. Por uma “ideologia”.



E uso a palavra “ideologia” entre aspas pois não sei se o circo político brasileiro tem algo que se possa chamar ideologia. Interessante essa dificuldade que a gente tem de separar a pessoa da obra da pessoa, não é? Basta que o poeta abra a boca para uma declaração de posição política e pronto. Contamina-se.



Essa separação “ideológica” em grupos, tribos, castas, raças, pode ser um indicador da qualidade da inspiração, da obra, da arte das pessoas? Quando fala de saudades o comunista fala melhor que o capitalista? O amor do católico é melhor que o amor do muçulmano? A arquitetura de Oscar Niemeyer é ruim por ele ser comunista? Um músico negro toca pior que um branco? Um verso como “Ai, como essa moça é distraída / Sabe lá se está vestida / Ou se dorme em transparente”, de Chico Buarque, ficou ruim depois que ele disse que adora Cuba ou que vai votar em Lula? Pra mim, não. Apesar de discordar do Chico político, continuo tiete do poeta, que é o que realmente me interessa.



Lembro-me da carreira de Wilson Simonal, destruída quando ele foi injustamente apontado como “dedo duro” pelas patrulhas que lutavam contra o governo militar. Repentinamente, o carisma, o balanço e a simpatia do ídolo que arrastava multidões, passou a não valer nada. Um rótulo ideológico destruiu o artista.



Tempos atrás tomei minha decisão. Quando o assunto é arte, só tenho reservas quanto a uma “ideologia”: o consumismo. Leia bem: con-su-mis-mo. Quando a arte é absorvida pelo comércio, deixa de ser arte. Morre.



A arte está acima da política. Mas precisa da política. No entanto, não consegue contaminar a política. É a política que contamina a arte. E então as pessoas passam a odiar o artista, transformado em objeto político. O coração pede pra amar, mas a consciência manda odiar. Louco isso, não é?



– Ah, mas artistas são personalidades públicas. Têm responsabilidades como formadores de opinião!



Também acho. Mas aí o papo é sobre política, não é mais sobre arte…



Arte é para ser apreciada com os olhos da alma. Poesia vem do coração, da alma, de lugares onde a política não se mete… E quando se mete, é para usar a arte. Não raro, soando falsa. Populista. Você consegue reconhecer isso no riso amarelo do político com a criança miserável no colo, no horário eleitoral? Pois é…



A política – ao menos essa que está aí – reduz a complexidade de nossas vidas e o valor de nossos sentimentos a meros instrumentos de troca.



Mas eu me vacinei. Aprendi a apreciar o que quero e não o que alguém quer. Rótulos, quem dá sou eu. E, na música, só ouço o que gosto. E o que gosto, para mim, é música boa. Com eleição ou sem eleição. Com partido ou sem partido. Com ideologia ou sem ideologia.



Para lidar com arte, minha ideologia é meu coração.



Vou agora botar um CD. Maria Bethânia, divina, cantando os versos de Caetano “Ainda assim acredito / Ser possível reunirmo-nos / Tempo tempo tempo tempo / Num outro nível de vínculo / Tempo tempo tempo tempo”…



Posso escolher entre mergulhar nos versos e na melodia e me emocionar ou me preocupar em saber em quem Caetano vai votar…



Adivinhe qual opção eu escolho?