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Esses dias, eu tava assistindo uma entrevista entre o Brian Johnson do site Philosopher’s Notes e o Cal Newport. Cal Newport é um PhD pica das galáxias formado no MIT que hoje dá aula de ...

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Me engana que eu gosto

Me engana que eu gosto

Luciano Pires -

Em 1959 o premier da Austrália, Joe Cahill, estava doente e sabia que tinha pouco tempo de vida. Abraçou então um desafio: fazer com que o projeto da Ópera de Sidney, o fantástico prédio cuja imagem hoje representa o país, se tornasse realidade. Seu compromisso foi de iniciar as obras rapidamente de forma que, se seu partido perdesse as eleições, não haveria como cancelar o projeto. Cahill sabia que o orçamento do projeto, de 58 milhões de dólares australianos, não seria aprovado. Anunciou então que a obra custaria sete milhões e começou a construção antes mesmo que todos os desenhos estivessem prontos. Não demorou para que os fatos começassem a superar a ficção e os valores foram subindo. Num determinado momento, Jorn Utzon, o arquiteto responsável pelo fantástico projeto, foi demonizado. Entre outros problemas, a culpa do estouro do orçamento seria dele, de seu design e mau gosto. Foi uma campanha tão forte que Utzon deixou a Austrália em 1966, prometendo nunca mais voltar.

A data para inauguração do projeto era 1963, ao custo total dos tais sete milhões de dólares australianos. O prédio foi inaugurado em 1973 ao custo de 102 milhões… Você leu certo sim: cento e dois milhões de dólares australianos. E para piorar, as interferências políticas e mudança do arquiteto fizeram do Opera House um local excelente para shows de rock, convenções e orquestras de câmara, mas inadequado para óperas clássicas. A Ópera de Sidney não era adequada para óperas. Em 2001, Utzon foi chamado de volta para consertar os problemas e em 2007 propôs uma reforma completa no complexo.

Bem, vamos lá: de sete para 102 milhões são aproximadamente 1400% de estouro no orçamento original. Corrupção, desvio de verbas e serviços fantasmas nunca apareceram como problemas principais. A história debita o estouro do orçamento a uma decisão política, seguida da troca do arquiteto, dificuldades de construção e outros problemas técnicos. Questionados quase quarenta anos depois, vários australianos defendem a “trapaça” do orçamento, pois sem ela o projeto jamais seria aprovado e aquele monumento ícone do século 20 não existiria…

Projetos multimilionários fazem com que muita gente ganhe, honestamente ou não: engenheiros, arquitetos, construtores, paisagistas, advogados e políticos entre outros. Cria-se então a figura do “me engana que eu gosto”: todos sabem que o orçamento apresentado é insuficiente, mas a obra “precisa” ser feita para o bem geral da nação. Nenhum dos envolvidos se vê como desonesto ou corrupto e nós, povo, compramos as promessas, felizes com os cenários idílicos de um futuro precioso que jamais será cobrado de quem prometeu. Deliberadamente cegos para as trapaças, aceitamos projeções de custos subestimadas e de ganhos superestimadas. O resultado é um custo altíssimo para a sociedade, mas sem o qual “as obras de arte não seriam construídas.” E o interesse público torna-se refém do privado. Conhece esse filme? Pois é.

O Velódromo construído no Rio de Janeiro ao custo de R$ 14 milhões para os Jogos Pan Americanos de 2007 (lembra? Parte das obras que seriam aproveitadas para as Olimpíadas de 2016?) acaba de ser declarado inadequado pelo Comitê Olímpico Internacional. Previa-se uma reforma de R$ 70 milhões, mas já se fala na construção de um novo velódromo com custo superior a R$ 115 milhões. E isso é só o velódromo. É só Olimpíadas. Ainda tem a Copa. O trem bala. A transposição do São Francisco. O Pré Sal…

Me engana que eu gosto.

Luciano Pires