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Limpando a lista

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Luciano Pires -

Todo final de ano reviso minha agenda telefônica para eliminar os contatos que não têm mais relevância. Antes uma cadernetinha de endereços, hoje é em meu iPhone que vou revisando, em ordem alfabética, cada contato. É sempre uma surpresa. Quantos contatos nem me lembro quem são! Pessoas com as quais estive durante a realização de palestras, gente do operacional, o motorista de táxi que me pegaria no dia seguinte, o técnico que cuidaria do som, pessoas que cruzaram minha vida e que jamais reverei. Esses eu apago.

Também gente que contatei para buscar informações específicas e que dificilmente voltarei a ver. Também apago.

Aí tem um grupo que me deixa, como a gente dizia em Bauru, encafifado: o nome está lá, com sobrenome e tudo, mas não tenho a menor ideia de quem seja. Bem, se não sei quem é, é dispensável. Apago.

E então chega a categoria que sempre me abala, a dos que faleceram no ano que termina. Logo na letra “A” encontro meu tio Alcides, irmão mais velho de minha mãe, que faleceu dia 30 dezembro de 2013, depois da revisão da lista naquele ano. Fico na dúvida… Apago ou não apago? Afinal, para quê um número que tem praticidade inútil, a não ser provocar lembranças de um ente querido? Hummmm. Mas eu tinha tanto carinho pelo tio Alcides… Decido não apagar. O tio fica.

Passo pelo “B” sem problemas e no “C” encontro o Chiquinho, um daqueles amigos que são como irmãos e que se foi já há 3 ou 4 anos, deixando um vazio impossível de ser preenchido. Nunca tive coragem de apagar o contato e não será agora. O Chico fica.

Passo pelo “D”,“E”,“F”,“G”,“H”,“I”,“J” e “K”, aliviado… e no “L” encontro minha prima Lila, filha do meu tio Alcides, que faleceu poucas semanas depois do pai. E vem uma enxurrada de lembranças da infância. Mantínhamos pouco contato, mas sempre afetuoso. A Lila fica.

Sigo em frente, ressabiado. Passo pelo “M”,“N”,”O”,“P” e “Q” e fico feliz. Tá todo mundo vivo. Mas quando chego ao “R”, encontro Rubem Alves, o mestre que se foi em 2014. Mantive com ele poucos contatos pessoais, uma tarde agradável de bate papo em sua casa em Campinas, troca de emails de quando em quando, mas seus livros sempre foram um alimento para minha mente e alma. Era um grande companheiro e mentor cujo contato, com certeza, jamais apagarei. O Rubem fica.

Chego ao fim da lista sabendo que quatro dos contatos nunca atenderão a uma ligação nem responderão a uma mensagem. Até 2013 era só o Chiquinho. 2014… Que ano…

Recosto-me na cadeira para refletir. E me lembro do filósofo Sêneca que uma vez escreveu:

“Feliz o homem capaz de ter por alguém tanto respeito que a simples lembrança do modelo basta para lhe dar ordem e harmonia espiritual.”

Ordem e harmonia espiritual. Com um tantinho de saudades. É isso que a revisão de minha lista de contatos me dá.

Feliz 2015.