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Liderança póstuma

Liderança póstuma

Luciano Pires -

Como comentário a um artigo que escrevi sobre a China, recebo um email de ninguém menos que do ex-ministro Ozires Silva com uma informação que pouca gente conhece:

“Caro Luciano, no final de 1988 recebi uma ligação do Peter Drucker, com quem ainda não tinha tido um contato pessoal, convidando-me para integrar um grupo, liderado por ele, para ir à China a convite do Presidente Deng Xiaoping. Ele me acentuou que acompanhava meus esforços para criar uma indústria aeronáutica no país e que gostava das ideias que conduziam aquele empreendimento pioneiro. Assim, considerava que minha experiência de Brasil, ao lado das iniciativas para fabricar os aviões brasileiros, poderia muito ajudá-lo a se desincumbir do pedido do Presidente Chinês. Deng Xiaoping queria um Plano que assegurasse à China produzir e dominar o mercado ocidental que, na época parecia distante e, para muitos, impossível. Fomos à China em Janeiro de 1989, onde passamos um mês formulando o plano solicitado. O que nos impressionou foi a determinação do Governo em todos os escalões com os quais tivemos contato (mais ou menos uns 800 dirigentes do então Partido Comunista Chinês), para fazer com que o planejado se transformasse em realidade. Viu o que aconteceu? Não podemos atribuir tudo ao plano que o Peter Drucker lá deixou, mas certamente podemos dizer que os objetivos que tiveram, o foco que colocaram naqueles objetivos e a disciplina para chegar lá, deram origem a esse milagre.”

Muito bem. Nomeado grande líder chinês após a morte de Mao Tsé-Tung em 1976, Deng Xiaoping foi o incentivador das reformas econômicas que sustentam a China que conhecemos hoje. Não vou discutir as reformas nem as questões ideológicas, quero aqui chamar atenção para outro ponto. Em 1988, quando da visita daquele grupo liderado por Peter Drucker, Deng Xiaoping tinha nada menos que 84 anos de idade. Eu disse 84. A China era a grande nação atrasada, fechada, sem parques industriais capazes de produzir com qualidade, mas o líder tinha uma visão: dominar o mercado internacional. E transformou a visão num plano, chamando as melhores cabeças para dar os conselhos necessários.

Qual seria a perspectiva de vida de Deng Xiaoping aos 84 anos? Ele evidentemente sabia que não viveria para ver os resultados de seus esforços, não teria nenhum benefício pessoal se a China alcançasse seus objetivos. Mas liderou o processo, implementou o plano e forçou a mão para modernizar o país. Deu no que deu.

Pessoas capazes de investir em projetos ambiciosos cujos resultados só aparecerão depois que estiverem mortas me fascinam. E é impossível não fazer uma comparação com nossos líderes brasileiros, sempre tão zelosos em investir em projetos de curto prazo e alta visibilidade, que rendem votos e, quem sabe, uma graninha por fora, não é?

Tem algo pra se aprender com essa história?

Deixo para sua reflexão uma frase deliciosa do político romano Marco Pórcio Catão, também conhecido como Cato, o velho:

“Depois que eu morrer, prefiro que as pessoas perguntem por que eu não tenho um monumento, do que perguntem por que tenho um…”

Luciano Pires