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Lá Vem O Negão

Lá Vem O Negão

Luciano Pires -

– Lá vem o negão… Cheio de paixão… Te catá, te catá, te catá… Foi em 1994 que o Cravo e Canela – um daqueles grupos musicais que surgem com um sucesso para desaparecer em seguida – lançou a música “Lá vem o negão”.
Pois sempre que vejo as cenas do Supremo Tribunal Federal tratando do caso dos mensaleiros, o refrão volta: “Lá vem o negão. Cheio de paixão. Te catá, te catá…”
Pretendo mandar a música de presente pro Zé Dirceu e seus companheiros. Eles saberão que por “negão” me refiro a Joaquim Benedito Barbosa Gomes, primeiro negro nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal. O ministro Joaquim Barbosa, como relator do processo do “mensalão”, desempenhou papel fundamental na transformação daqueles 40 “suspeitos” em réus, que responderão por formação de quadrilha, peculato, evasão de divisas, lavagem de dinheiro, etc, etc, etc…
Tem gente que vai achar ruim – talvez até me chamem de racista – eu chamar o Ministro de “negão”. Não percam tempo. Não existe outro termo. Ele é negão, sim senhor, um rótulo políticamente incorreto mas impossível de ser substituído. Afro-brasileiro não carrega o afeto que o termo “negão” expressa. Tem que ser “negão” mesmo…
Olha o que achei sobre ele, em artigo do Correio Braziliense:



“Em 1970, um adolescente pobre da cidade de Paracatu (MG) mudou-se para Brasília em busca de estudo. Tinha 16 anos. A cidade natal era muito pequena, com horizontes igualmente curtos. Conseguiu uma vaga no colégio Elefante Branco. Ia a pé ao colégio. Formou-se e passou no vestibular para Direito, na Universidade de Brasília. Morou em várias repúblicas estudantis. Trabalhava das onze da noite às seis da manhã. Dormia à tarde e estudava entre seis da tarde e dez da noite. Formou-se, fez concurso público e conseguiu fazer mestrado e doutorado na Universidade de Paris. Ontem, no dia 7 de maio de 2003, o menino pobre, filho de pedreiro e dona de casa, voltou a Brasília. Desta vez, para ser indicado a um posto na mais alta corte do país. Joaquim Benedito Barbosa Gomes será o primeiro negro a ocupar uma vaga no Supremo Tribunal Federal. Há dez anos, em Paris, foi perguntado por um ministro do Supremo francês sobre suas chances de chegar ao STF brasileiro. A resposta foi imediata: ´Nenhuma´. Ligará para dar a notícia.”



Que história bonita, não? Ligar a televisão e ver sua figura, o único negro num grupo de brancos – a maioria com expressão de supremo enfado –, lutando para que a justiça prevaleça, tem sido um sopro de esperança para quem achava que o Brasil não tem mais jeito.
O Brasil tem jeito, sim. Quem não tem são alguns “brasileiros” que continuam achando que estão acima do bem e do mal.
O ministro Joaquim Barbosa – negro de origem humilde – talvez ainda não tenha percebido o que representa para a sociedade brasileira. Precisamos desesperadamente de referências políticas e culturais nas quais possamos confiar. De suas mãos podem sair decisões que vão ajudar a colocar o Brasil nos trilhos. E, num momento em que a mídia só dá espaço para oportunistas, bandidos, aproveitadores e medíocres, o negão Joaquim surge para nos redimir. Para baixar a crista dos que acham que podem tripudiar sobre a Justiça e a Moral.
Pois o negão que se cuide. Junto do Procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, está sob os holofotes. Será acusado de “jogar para a platéia”, de ególatra, de golpista e todos aqueles adjetivos que a turma dos quarenta usa quando se sente ameaçada. Torço sinceramente para que não apareça um daqueles “dossiês” capazes de manchar seu passado. 
Pois saiba, Senhor Ministro, que tenho a impressão de que o Brasil está a seu lado. O Brasil branco, o Brasil negro, o Brasil rico, o Brasil pobre, o Brasil honesto. O Brasil que o senhor representa. Continue sendo o negão, cheio de paixão, defendendo a dignidade e transformando quadrilheiros em réus. Precisamos de exemplos. Precisamos de referências. Sejam elas brancas, amarelas, vermelhas ou negras.
Cata eles, ministro. A trilha sonora a gente já tem:
– Lá vem o negão…