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Luciano Pires -

Nos anos setenta, quando o tablóide O PASQUIM estava no auge, o cartunista Jaguar criou um personagem antológico: Gastão, o vomitador. O Gastão era um sujeito comum, tinha cara de contador, carequinha, barba mal feita, óculos com moldura grossa e usava um terninho com gravata escura. Sempre que uma situação o desagradava, especialmente se relacionada ao universo político daqueles anos de chumbo, Gastão não tinha dúvidas, vomitava sobre a fonte de sua indignação. Seu grito de guerra era delicioso:

– BLUAH!!



Os anos passaram, a ditadura se foi, o Pasquim acabou, chegamos à democracia, a esquerda tomou o poder e… que falta faz Gastão, o vomitador!

Mas parece que ele voltou. Na reunião do Conselho de Ética do Senado, presidida pelo boneco de ventríloquo Paulo Duque, que arquivou as 11 denúncias contra o senador José Sarney, Gastão baixou no Senador Flavio Arns, do PT do Paraná.

Diante das éticas explicações de Paulo Duque, o sistema nervoso parasimpático de Flavio Arns – que estimula as atividades relaxantes – entrou em ação, provocando um aumento na salivação. Conforme a votação foi se encaminhando, começou um movimento na zona média de seu intestino delgado, fazendo com que o conteúdo intestinal começasse a circular num sentido inverso. Quando ouviu Wellington Salgado dizendo “não”, sua musculatura abdominal contraiu-se, aumentando a pressão intra-abdominal. Então veio Ideli Salvati e Flavio Arns sentiu que sua pressão intra-toráxica baixou… E ao ouvir a decisão pelo arquivamento, seu sistema nervoso simpático – que estimula as ações que mobilizam energia – entrou em ação, aumentando os batimentos cardíacos. E Flavio Arns começou a transpirar. Era o pródromo do vômito, que foi espetacular:

“Eu quero dizer infelizmente que eu tenho que me envergonhar daquilo que meu partido fez. O Partido dos Trabalhadores rasgou hoje a página fundamental da sua constituição, que é a ética. Pegou a folha da ética e jogou no lixo. (…) Infelizmente o partido deu as costas para a sociedade, para o povo, para os seus princípios, para bandeiras que são tão caras para mim e para tantas pessoas pelo Brasil. Eu posso dizer hoje que me envergonho de estar no Partido dos Trabalhadores com este direcionamento que o partido está fazendo. É uma vergonha para mim e quero dizer isso de maneira muito clara à todos os meus eleitores.”

E então o Senador anunciou que vai retirar-se do partido.

Flavio Arns me lembrou daquelas antigas comédias quando o Gordo dava uma tijolada na cabeça do Magro, que sempre levava alguns segundos para reagir à dor. Flavio Arns é o Stan Laurel do PT: levou quase três anos para acordar e vomitar sua indignação. Mas ao menos teve a coragem e dignidade de vomitar. Espero que tenha sido sincero.

O vômito, na maior parte das vezes, é o recurso que o organismo usa para livrar-se de substâncias tóxicas. O Brasil precisa incorporar Gastão, o vomitador, para um grande, consciente e redentor vômito, seguido daquela deliciosa sensação de bem estar.

Vomita Brasil! Antes tarde do que nunca.