
Abro minha palestra “O Complexo de Vira Latas” com uma informação que pouca gente conhece: a Copa do Mundo de 1950 foi disputada no estádio do Maracanã ainda em obras. A concorrência para a construção do estádio foi aberta pela prefeitura do Rio de Janeiro em 1947, as obras iniciaram-se em agosto de 1948, mas só foram completadas em 1965. O impacto da derrota para o Uruguai naquela final de 1950 foi tão grande que apagou de nossa memória todos os outros detalhes do evento.
Ou seja, em se tratando de Copa no Brasil o retrospecto não é bom...
Vejamos a Copa de 2014. O orçamento das obras nos estádios de futebol foi inicialmente de 3,7 bilhões de reais. Em Janeiro de 2011 veio a primeira correção, para R$ 5,6 bi. Em setembro, nova correção: R$ 6,6 bi. Isso só com a construção dos estádios. Se computados os investimentos na infra-estrutura em torno das praças de esportes, nas melhorias em aeroportos, estradas, rede hoteleira e tudo o mais, vamos chegar facilmente aos R$ 40 bi. E acho que estou chutando baixo.
Conheço gente que aposta que o evidente atraso nas obras nada mais é que a velhíssima estratégia de criar dificuldades para vender facilidades: na última hora o governo abre o cofre e gasta o que for, como for, pra não passar vergonha.
O exemplo do Pan do Rio de Janeiro é preocupante. O que se construiu no Rio foi muito mais do que seria necessário para a realização de um Pan. Foi na verdade uma vitrine para mostrar que tínhamos bala na agulha para realizar uma Olimpíada por aqui, e a estimativa inicial de R$ 538 milhões se transformou em R$ 3,7 bilhões. Você leu certo: 3,7 bilhões de reais. E não se fala nos valores necessários para a manutenção das estruturas após os eventos. As informações são de que Atenas, na quebradíssima Grécia, consome algo em torno de US$ 100 milhões por ano apenas para conservação do complexo Olímpico.
Realizar a Copa movimenta o país, traz divisas (muito menos do que se julga) e teoricamente faz a qualidade dos serviços melhorar, mas não é esse o principal ponto. O maior benefício deveria ser a oportunidade de aproveitar a disposição do poder público em abrir os cofres, para realizar mudanças necessárias que causem impacto positivo na sociedade.
Palestrei num evento sobre a Copa no Brasil onde um inglês apresentou dados sobre a realização das Olimpíadas de Londres em 2012. O caso é diferente da Copa, pois a Olimpíada acontece numa cidade só, mas uma coisa chamou a atenção: a forma como foi tomada a decisão de onde localizar as obras do complexo Olímpico. Uma comissão de representantes de vários segmentos da sociedade se reuniu para tomar as decisões estratégicas iniciais. Colocaram um mapa de Londres sobre a mesa e perguntaram: qual é o pior lugar da cidade? Onde estão os mais altos índices de criminalidade? A menor presença do estado? Os lixões? A falta de transporte e de hospitais? Encontraram o lugar e decidiram: é aí! E assim começaram um processo de revitalização que mudou o destino daquela região e, por tabela, da cidade.
Não quero ficar fazendo comparações entre Londres e Brasil, quero apenas enfatizar a diferença entre os motivadores das decisões. Lá, foram sociais e políticas. Aqui são só políticas.
Talvez aí tenhamos uma lição a aprender e sejamos capazes de deixar um legado que independa do resultado do jogo final.
Não me interessa se o Brasil vai ganhar a Copa. Interessa o que é que o Brasil vai ganhar com a Copa.
Luciano Pires
