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E Se?

E Se?

Luciano Pires -

Ela é apresentadora veterana de programas de televisão. Não está nas redes de grande audiência, mas conhece profundamente os bastidores da indústria televisiva e faria uma palestra no mesmo evento que eu. Aproveitei para tirar um monte de dúvidas, uma delas sobre um programa novo que sua emissora havia colocado no ar. Uma coisa estranha, com apresentadores deslocados e conteúdo policialesco, repleto de sangue e com um comentarista que ficava o tempo todo falando a mesma coisa e repetindo cenas, um horror!. Minha dúvida era simples: como é que uma porcaria dessas é criada?

Será que um grupo de gente inteligente se reunia para discutir, elaborar e planejar a porcaria? Ou seria tudo obra do acaso? Ou então da sobrinha do dono, do amigo do diretor, da neta do político ou da mulher do patrocinador? E ela respondeu:

– Há um grupo de cabecinhas sim, Luciano! E a técnica que eles usam para a criação dos programas é o “e se?”.

E então ela deu o exemplo de um programa baseado em notícias e amenidades, criado para ser apresentado nas manhãs. Um dia alguém notou que cada vez que uma notícia policial aparecia, a audiência aumentava. Então, numa das reuniões daquele grupo de cabecinhas, alguém disse:

– E se a gente aumentar as notícias policiais?

Pronto! O programa das manhãs ficou ensangüentado, histriônico, lacrimoso e barulhento. E a audiência cresceu… Pouco depois, surgiu uma apresentadora bonita que chamava a atenção do público e gerava audiência. Batata! Noutra reunião dos cabecinhas saiu esta:

– E se ela apresentar um programa policial?

Notícias policiais com apresentadora bonita? Pronto! A moça totalmente deslocada, passou a apresentar tragédias enquanto o comentarista com seu blábláblá vampiresco tomou conta das manhãs.

E assim aquela programação baseada em notícias foi se transformando, apelando para as tragédias e a violência. Jornalismo? Bah! Tudo decidido na base do “e se?”.

Ta certo, a audiência cresceu, mas ficou diferente. As pessoas que assistiam para ver as notícias, para saber das novidades, para ver a receita do bolo, aos poucos foram expulsas pelo sangue e violência. Mudaram de estação, desligaram a televisão, procuraram alguma atividade que preenchesse suas almas, seus espíritos, suas mentes, com coisas nutritivas.

E a grande audiência que restou passou a ser composta de gente interessada em sangue. Em tragédias. Em desgraças. Gente que não quer estímulos criativos ou intelectuais. Gente que quer baixaria. Dor. Miséria e ódio. Audiência medida pela quantidade, jamais pela qualidade.

E quanto mais o programa se nivela por baixo, mais cresce o número absoluto da audiência. E gerentes de marketing e publicitários, excitados pela imensa audiência de pocotós, programam anúncios que vão dar razão aos cabecinhas:

– Viu só como estávamos certos?

Aí outra emissora vê o sucesso e copia. E assim vamos, construindo uma nação de idiotas.

Perguntei para a apresentadora como é que era conviver nesse meio, e a resposta veio, entre melancólica e conformada:

– Para os cabecinhas, sou um corpo estranho na emissora. Faço jornalismo…

Pois bem… O lixo só está lá por causa da audiência que, se você não dá, seu marido dá. Sua esposa dá. Seus filhos dão. Seu vizinho dá. Seus empregados dão.

E se não dessem?