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DONA DORA



                                                        Seu Duarte e Dona Dora no dia da festa de 100 anos dele 


Eu era o Lucianinho. Tinha oito ou dez anos. Em pé, na cozinha, com os olhos esbugalhados, assistia Dona Dora que lidava com um prato de louça sobre a pia. No centro do prato, um pouco de água e azeite. Dona Dora ia rezando baixinho enquanto cortava a gota de azeite em duas, depois em quatro partes… E fazia um sinal da cruz com a faca em frente à minha testa, enquanto murmurava algo que jamais entendi. A mãe de minha mãe, minha Vó Dora, estava me benzendo. Dizia que estava tirando um quebranto, um mau olhado… Essa é a imagem mais forte que tenho de minha Vó Dora, além do bombom Sonho de Valsa que sempre me esperava e do jeitinho de conversar como se estivesse me chamando pra confidenciar num cantinho…




Dora é a redução carinhosa que a família fez de seu nome: Adoração. Fala a verdade, quantos podem se gabar de ter uma avó chamada “Adoração”?





Adoração era esposa do Duarte. Quem lê meus textos há mais tempo, conheceu o Seu Duarte, meu avô, que faleceu em novembro de 2004, aos 101 anos, deixando Dona Dora, que tinha 94 anos, viúva. Dois anos antes eles comemoraram 75 anos de casados. Quando Seu Duarte morreu, escrevi um texto chamado “Um Passarinho” onde eu dizia: “Ao lado dele, inseparável, a Vó Dora, com seus 94 anos e 77 de casamento, atendendo cada vez que ele perguntava pela ´Dorinha´, sua adoração. O Vô se foi, Dorinha ficou. Vê-la sozinha é difícil. Falta um pedaço.”





Fred Astaire e Ginger Rogers. O Gordo e o Magro. Pelé e Coutinho. Jambo e Ruivão. Batman e Robin. Arrelia e Pimentinha. Tom e Vinicius. Sá e Guarabyra… Tive muitas duplas como referência em minha vida. Mas Dona Dora e Seu Duarte, ao lado de meu pai e minha mãe, foram a principal. Dos dois recebi todo tipo de influência positiva. E um conceito de “família” como não existe mais. Os primeiros quarenta e oito Natais de minha vida, passei ao lado deles. E quando a dupla se desfez em 2004, aqueles Natais mágicos acabaram. Dona Dora ficou triste, perdeu o gosto pela vida…





Pois domingo passado a Vó Dora foi encontrar o Seu Duarte. Quando minha mãe ligou comunicando que ela falecera, já esperávamos. Ela estava adoentada. Fui para Bauru, para as homenagens finais e o enterro. No velório uma surpresa. Em meio às flores do caixão, com um semblante incrivelmente tranqüilo, Vó Dora esboçava um leve sorriso. Aquela expressão de paz serviu para atenuar muito a dor de todos os presentes. E eu sabia pra quem era aquele sorriso.





Era pro Seu Duarte…





O Vô e a Vó eram tão especiais que até na morte arrumaram um jeito de não atrapalhar. Vô Duarte se foi numa sexta. Vó Dora num domingo.





Ali ao lado do caixão, permaneci imaginando Dona Dora chegando ao céu e sendo recebida pelo Seu Duarte, num longo e saudoso abraço. A dupla que conheci por 48 anos, estava reunida de novo. Infelizmente longe de nós. Mas perto, pertinho de nós. Como diria o poeta, eles agora moram num ranchinho no meu coração.





To querendo encerrar este texto da mesma forma que encerrei o texto do Vô Duarte em 2004… Posso? Obrigado…





Por 50 anos tive aquele casal como uma referência, um norte. Reflito muito sobre o que sinto por meus avós. E quanto mais penso, mais certo fico: res-pei-to. Nunca conheci alguém tão respeitável como o Vô Duarte e a Vó Dora. E dentre os atributos positivos dos homens, respeito é justamente o mais ameaçado de extinção. O respeito que sinto não é pela autoridade, pelo cargo, pelo poder. É o respeito pelo exemplo, pela humildade, honestidade e caráter. Quantas pessoas verdadeiramente respeitáveis assim você conhece, hein?





Sou um privilegiado. No meio dos anti-heróis da modernidade, dos modelos de sucesso raso, das celebridades vazias, da falta de caráter, dos aproveitadores, dos hipócritas, tive pertinho de mim e de meus filhos um modelo de gente como não se faz mais.





E aí, Lucianinho, quer dizer alguma coisa?





– Obrigado, Vó. Pra mim a senhora é eterna. “Qui nem” o Vô…