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Don Facundo

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Luciano Pires -

Don Facundo era o nome dele. Pelo menos eu acho que era, pois já lá se vão uns 40 anos… Don Facundo era um boneco de ventríloquo que nos anos sessenta e início dos setenta fazia a festa da criançada na televisão. Me lembro bem que o boneco era espirituoso e falava com sotaque. Eu ficava fascinado cada vez que ele aparecia nos televisores em preto-e-branco. Mas um dia foi diferente. Apareceu o ventríloquo sozinho, numa entrevista, fazendo um apelo. O Don Facundo fora roubado, e seu dono pedia, a quem o roubou, que devolvesse seu instrumento de trabalho.
Assisti àquela cena meio sem entender direito. O que é que alguém faria com um boneco de ventríloquo roubado? Será que o boneco falaria com outra pessoa além de seu dono? E se fosse outro ventríloquo? O boneco não teria a mesma voz, nem a mesma personalidade. O fato é que o ventríloquo reapareceu depois com outro boneco, mas que já não era o Don Facundo. E me arrisco a dizer que estava mais triste. Não tinha mais a mesma cara, nem fazia a mesma graça. E o tal ventríloquo desapareceu…
O ladrão que levou o boneco levou também um pedaço da vida do ventríloquo.
Tudo isso me veio â lembrança na última terça feira, dia dois de outubro de 2007 quando, em plena Marginal de Pinheiros, em São Paulo, em meio a um engarrafamento, um motoqueiro parou ao lado do meu carro, bateu em minha janela e, mostrando um revólver, agressivamente levou meu relógio, meu celular e meu lap top.
Tudo aconteceu em menos de um minuto, no meio de muitos automóveis. Minha reação foi instintiva. Apenas deixei as mãos à mostra, mantendo-me calmo – já que o ladrão parecia muito nervoso – e entreguei cada objeto que ele pedia. Vi aliviado o ladrão sair em meio aos carros. O relógio era baratinho. Os celulares eu bloqueei. Mas o lap top era meu Don Facundo. Dentro dele, milhares de informações. Perdi alguns projetos nos quais eu trabalhava e que ainda não haviam sido duplicados para outras máquinas. Mas alguma coisa mais também foi roubada.
Dois dias após o assalto fiz a palestra de abertura do Congresso Internacional para a “Qualidade do Programa Gaúcho da Qualidade e Produtividade”, em Porto Alegre. Cerca de mil pessoas na platéia ouvindo-me falar sobre inovação. A palestra foi um sucesso, mas em nenhum momento me senti à vontade naquele palco. Tinha mais alguém lá comigo, o tempo todo.
Um motoqueiro e um cano de revólver…
Sempre termino a palestra com um apelo à platéia para que lute contra a percepção de que o Brasil é um país de risco. Eu digo que a exposição diária a doses maciças de violência, principalmente pela televisão, faz com que tenhamos uma imagem muito pior da realidade. Sempre defendi essa tese com paixão.
Mas naquela manhã, enquanto tentava dizer aquelas palavras, senti que estava sendo falso.
Aquelas palavras cabiam na boca de um outro Luciano. Um Luciano que, de certa forma, morreu na Marginal de Pinheiros, quando o que até então era uma percepção, passou a ser realidade.
Meu relógio se foi. Compro outro. Meu celular se foi. Compro outro. Meu lap top se foi, Compro outro.
Mas, como Don Facundo, o ladrão levou junto um pedaço de mim.
Que não dá pra comprar com dinheiro nenhum.