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De frente para o vazio

De frente para o vazio

Luciano Pires -

Dez anos atrás, em Manhattan, escrevi um texto que repriso hoje.

Aqui estou, no “Ground Zero”, ao sul de Manhattan, onde há pouco mais de um ano se erguiam as torres imponentes do World Trade Center. São duas da manhã. Barracas vendendo quinquilharias para todo lado, gente do mundo inteiro olhando aquele canteiro de obras.

No dia seguinte, passo por lá outra vez. Com o sol brilhando é possível perceber o tamanho da tragédia. Caminhando pelas avenidas retilíneas de Manhattan é impossível olhar para aqueles outros prédios sem imaginar o que foi a cena do avião entrando pela parede. O barulho infernal, a bola de fogo e a queda das torres. Na descrição de quem viu, primeiro um barulho de aço torcido e depois uma sequência de explosões sincronizadas, conforme cada andar vinha abaixo.

E a nuvem de cinzas e pó.

Em pé, de frente para aquela área imensa, vazia, a mente voa. Terá sido assim – guardando as proporções – a Londres depois dos bombardeios alemães? Hiroxima e Nagasaki? O Libano? A Sérvia? E todos os conflitos onde o homem lançou suas armas de destruição atingindo a população civil? Talvez, mas com as torres gêmeas havia uma diferença fundamental, não existia uma guerra. E vem daí o choque: houvesse a guerra, seria de se esperar.

Agora eu estava ali, ao vivo, vendo milhares de oferendas penduradas nas paredes próximas, as fotos dos desaparecidos, os bilhetes de seus familiares e amigos. Uma bandeira do Brasil com várias frases. Uma garota, cara de chinesa, pendurando um bilhete na cerca, com palavras de amor e saudades para uma das vítimas.

De frente para o vazio é impossível não imaginar o que vem depois. A obra de Bin Laden foi perfeita na execução, nos objetivos, na eficiência e na capacidade de chocar. E agora, o que é que pode nos chocar? Um artefato atômico dentro da grande cidade? Pode apostar. E com consequências muito mais catastróficas! Mas não tenho certeza se repetindo o impacto de 11 de setembro de 2001.

Aquele canteiro de obras é uma cicatriz gigantesca, mas que só dói mais que as tragédias do Oriente Médio, da África, da Europa Central porque foi ao vivo, em cores, atingindo gente igual a gente e não uma tribo perdida num país de nome estranho.

Dói porque teve mídia.

De frente para o vazio, revivo cada momento daquela manhã. Ouço os sons, sinto o cheiro, sufoco com o pó, corro de medo, choro com o bombeiro, pego no colo a criança, grito por vingança. De frente para o vazio, me pergunto o que mudou depois de 11 de setembro. E descubro, entristecido, que quem mais sofreu foi a liberdade. Passamos a ser mais vigiados, mais restringidos, mais desconfiados.

De frente para o vazio, senti meu coração vazio. Louco para voltar para a paz (!), a segurança (!), a falta de preconceito (!) do meu Brasil.

Ao menos para isso serviu aquela tragédia.

Luciano Pires