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Destaques da Aula 5 do Curso on-line de Filosofia (COF)
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Trivium: Capítulo 3 – Palavras atributivas: Verbos (parte 4)
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Culpa E Vergonha

Culpa E Vergonha

Luciano Pires -

Quando o avião parou em Brasília, um daqueles políticos envolvidos em escândalos entrou. Cabeça erguida, altivo. E, aos poucos, os passageiros começaram a sussurrar, imitando pombos:
– Corrupto… corrupto…
Pensei comigo mesmo: “que vergonha”… Mas o sujeito continuou impassível, ajeitou a bagagem e sentou-se, seguindo no vôo normalmente. Desembarcou como qualquer um de nós e pronto. Nenhum constrangimento. Igualzinho o Renan Calheiros nestas últimas semanas. Minha esposa foi definitiva após assistir parte de suas explicações na Câmara:
– Não acredito nem no “boa tarde” dele…
Pois eu admiro, sabe? Admiro aquele tremendo, expressivo e intimidante atributo dos políticos: a cara-de-pau. Quem tem cara-de-pau não tem vergonha. Não sente culpa. Não se intimida.
E como é interessante essa questão da culpa e da vergonha, não é? Para sentir culpa a pessoa tem que reconhecer que errou, que desobedeceu alguma regra ou lei. Que fez algo errado e, portanto, sabe que existe um “certo”. Quem assume a culpa manifesta a percepção de que se fizer um esforço para aprender pode deixar de errar. A culpa é perdoável. A culpa pode ser esquecida depois que o culpado paga pelo erro. Reconhecer a culpa é um exercício de humildade e nada tem a ver com incapacidade.
Incapacidade é coisa da vergonha.
Quem sente vergonha tem problemas com seu amor-próprio, sua auto-estima, mas não tem necessariamente culpa sobre a razão de sua vergonha. E o interessante é que a vergonha dá mais vergonha. O sujeito aparece com o zíper aberto e o bilau de fora. Que vergonha! Quando descobre a situação, fica vermelho de vergonha. Ao perceber que ficou vermelho, fica com vergonha de ter ficado vermelho… E o interessante é que não dá pra acusar, julgar, condenar ou punir a vergonha. Vergonha não precisa de perdão.
Voltemos então à situação de nosso Renan Calheiros. Ou de Paulo Maluf. Ou Fernando Collor. Ou… Se roubou, é culpado. Errou. Tem que pagar. E, ao ser pego no ato, deveria sentir vergonha.
Eu fico desesperadamente buscando um sinal de vergonha na cara deles. E não encontro. Impassíveis, fazem seus discursos, recusam a culpa e jamais demonstram sentir vergonha. Talvez por isso estejamos tão fartos deles. Essas pessoas parecem que não são humanas. Não sentem o que nós, humanos, sentimos. Mas como conseguem isso? Será que é pela educação? Ou será treinamento? Eu até entendo que um treinamento persistente pode fazer com que as pessoas jamais se sintam culpadas, mas será que dá pra aprender a não sentir vergonha?
Pois a Operação Navalha, as que vieram antes dela e as que virão depois, estão nos ensinando que é possível, sim, aprender a jamais sentir vergonha.
Admitir culpa é suicídio político e só acontece quando passa a ser o recurso final, aquele que transforma o delito em “escorregada”. Lembram-se de Bill Clinton negando e depois admitindo que teve “conduta inapropriada com aquela mulher”? Ele jamais admitiu que praticou sexo com a estagiária. Mas achou uma forma de assumir que errou, “escorregou”. E surgiu na televisão com uma cara tão envergonhada, que acabou levando a opinião pública para seu lado.
Por isso tudo é que entendo aquele político que entrou no avião e fez que não ouviu o coro dos pombos “corrupto…corrupto”… Ele está treinado para isso. Ele precisa não ouvir. Ele constrói sua verdade. Ele vive num mundo onde culpa e vergonha só existem como ferramentas para atingir seus objetivos. Mesmo que seja acusado, preso e condenado, jamais assumirá a culpa por seus atos. Sempre aparecerá como vítima.
E é também por isso tudo que eu nunca seria político. Posso até aprender a não sentir culpa, mas morreria de vergonha