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Crônica para Charlie Hebdo

Crônica para Charlie Hebdo

Luciano Pires -

O atentado ao jornal Charlie Hebdo, que terminou com 12 mortos, entre eles cinco cartunistas franceses de grande expressão, fez com que aquele clima de ano novo, de esperança, de “agora vai”, fosse apagado num piscar de olhos. Saímos do sonho para a realidade em meio à barbárie. Pensei numa forma de escrever sobre o tema sem cair no nhénhénhém dos críticos sociais de Facebook que hoje abundam. Vamos ver se consigo.

Para mim é impossível imaginar que alguém possa perder a vida por manifestar sua opinião, por mais imbecil, ofensiva, preconceituosa ou violenta que seja. No entanto, tem gente que não só acha que é possível como defende os assassinos! Não sei quem é mais bárbaro…

Opiniões devem ser combatidas com opiniões. Ou com a lei. Quando a opinião é calada pela violência física, econômica, psicológica ou de que forma seja, à margem da justiça, deixamos de viver num estado de direito para experimentar uma ditadura onde vence o mais forte, o mais violento, o que menos se importar com o ser humano. Onde acaba o direito.

E veja que interessante: justamente por não aceitar essa violência é que tolero ler o raciocínio idiota de gente que culpa as vítimas. Aliás, li nas mídias sociais manifestações que praticamente justificaram o atentado, e que me deram vergonha de ser humano.

Atenção, eu não escrevi “do ser humano”, mas “de ser humano”.

Fiquei realmente impactado com o acontecimento, me recolhi a meus livros e num deles encontrei uma imagem que, para mim, serve como a Crônica à Charlie Habdo. É a imagem que ilustra este texto.

Trata-se de uma pintura que está no Museu Nacional de Varsóvia, na Polônia, um dos trabalhos mais famosos do pintor polonês Jan Matejko, que realizou a obra em 1862, quando tinha apenas 24 anos de idade.

Matjeko pintou Stańczyk, o bobo da corte, durante um baile quando a Polônia estava no auge de seu poder cultural, econômico e político. Era a Renascença polonesa no reinado de Sigismundo I, o Velho, entre 1506  e 1548.

Além da fama como bobo da corte, Stańczyk era conhecido e respeitado por sua eloquência, inteligência e perspicácia. Diferente dos bobos da corte de outros países, era considerado muito mais que um palhaço. Era um homem sábio que usava a sátira, a ironia e o humor para comentar o passado, o presente e futuro do país. Como os bobos da corte, Stańczyk  exagerava até o grotesco os vícios e características da sociedade. Como os bobos da corte, era o único súdito a quem era permitido gozar o rei…

E o que essa imagem tem de especial? Bem, o título da obra é “Stańczyk durante um baile na corte da Rainha Bona, diante da perda de Smolensk”.

O bobo da corte é representado de forma sombria, triste, pensativo, enquanto a festa acontece em outra sala. Sobre a mesa, uma carta com a data 1514 e o nome Smolensk, que era uma das maiores cidades da união Lituânia/Polônia. A carta dava conta da tomada da cidade pelo exército de Vasily III da Russia.

O palhaço, o bobo, o gozador, é o único a perceber a gravidade do que estava acontecendo.

Enquanto isso, a corte bailava.

Feliz ano novo.