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O dia seguinte
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Cafezinho 88 – A Teoria da Ilusão Fiscal
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Não existem soluções novas. O que existe é ignorância velha.

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Chorei, chorei

Chorei, chorei

Luciano Pires -

Chegando a São Paulo, ao retornar de palestra que realizei em Salvador, peguei meu carro e segui pela Marginal do Tietê em direção à minha casa. Era mais de meia noite, liguei o rádio na CBN e peguei o começo do programa do Jô. Aguardei para ver quem seriam os convidados e decidi ouvir o papo com o cantor Emílio Santiago, outra daquelas entrevistas burocráticas, sem grandes novidades. Mas quando fui entrar na garagem, Emílio começou a cantar o clássico Misty, de Errol Garner e Johnny Burke, e aquele som tomou conta de mim. Uma delicadeza, uma tranquilidade, um acompanhamento delicioso da banda, uma interpretação que não pode ser definida com outra palavra que não “bela”. Não consegui sair do carro. Em seguida Emílio engatou o bolero Solamente una Vez, do mexicano Augustín Lara… Meus olhos se encheram de lágrimas. E então ele completou com Eu e a Brisa, de Johnny Alf. Emocionante. Só no dia seguinte, ao acessar a entrevista pela internet é que vi em que condições Emílio cantou: sentado ao lado do Jô, sem grandes gestos, tranquilo. Que delícia o sorriso imenso após cada música cantada! Vê-lo foi um impacto tão grande quanto ouvi-lo. Assisti de novo e me emocionei outra vez com as interpretações. Se você quiser saber como foi, acesse http://bit.ly/Mth8ax e assista a partir dos oito minutos.

Pois bem, alguns dias depois eu estava no Auditório Ibirapuera, o grande templo da música em São Paulo. A apresentação era “Cauby, violão e voz”. Exatamente, Cauby Peixoto, aos 81 anos de idade, acompanhado “apenas” pelo violão de Ronaldo Rayol. Coloquei o “apenas” entre aspas em respeito a Rayol, um artista espetacular. E Cauby mandou ver. Fugiu do roteiro, conversou com o público, demonstrou claramente a fragilidade física, cantou todo o tempo sentado e deixou clara sua satisfação com aquele momento. O Auditório Ibirapuera é hoje, ao lado da Sala São Paulo, um dos raros palcos que ampliam o talento dos artistas e Cauby, que nos últimos anos tem se apresentado em casas noturnas e restaurantes, soube reconhecer a grandeza do lugar. Ah, sim, o preço do ingresso foi 20 reais.

Cauby brindou a plateia com interpretações fantásticas. Lá pelas tantas, mandou uma Edith Piaf, e meus olhos marejaram. Depois veio Ave Maria no Morro, de Herivelto Martins, que Cauby cantou com Vânia Bastos. E as lágrimas começam a descer. Até que chegou a vez de Bastidores, de Chico Buarque. Aí não deu pra segurar, chorei a música toda, aos borbotões. Eu reagia a um artista mais que maduro, completo, no final da vida, que me presenteava com momentos únicos. Que sorte minha estar ali!

Ao agradecer a reação da plateia, Cauby comentou sobre o violonista que o acompanhava: “Vejam que coisa espetacular esse violão. Para tocar assim, tem que saber tocar. E para cantar assim tem que saber cantar. E vocês sabem o que é saber cantar.” Vibrei com aquela imensa ironia, um misto de elogio ao público com provocação para reflexão. Cauby tocou no ponto: saber cantar. Sem necessidade de dancinhas, decibéis e macaquices, apenas cantar, abrindo caminho para o coração da gente.

Emilio Santiago e Cauby Peixoto me conduziram pela verdadeira experiência da arte. Por isso chorei. E me orgulho disso.

Muito obrigado.

Luciano Pires