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As Trombadas

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Luciano Pires -

Estive dezenas de vezes em diversas cidades dos EUA, onde volta e meia me deparava com acidentes de trânsito. Nunca eram pequenas batidas, mas escandalosos acidentes com automóveis destruídos e vítimas fatais, coisas graves mesmo. Eu examinava os arredores: o pavimento perfeito, a sinalização perfeita, áreas de escape à vontade e uma profunda disciplina com respeito às leis de trânsito. Quem já enfrentou um cruzamento sem farol nos EUA e viu cada um respeitando a hierarquia do outro sabe do que estou falando. Por isso eu nunca me conformava:

– Cada baita trombada, sô!

Concluí que a razão é uma só: eles não sabem dirigir defensivamente. Atiram-se às ruas confiando cegamente nos outros motoristas. Têm certeza que ninguém mudará de faixa, ninguém ultrapassará pela direita, ninguém cruzará o sinal vermelho, ninguém trafegará acima do limite. Quando surge um fariseu quebrando as regras, pega todos desprevenidos. Não há tempo para brecar, desviar ou simplesmente deixar passar. E então acontecem as colisões. Aliás, as “trombadas”, como se dizia em Bauru.

Quando comparo com o Brasil, não deixo de me divertir. Aqui aprendemos a dirigir defensivamente. Temos certeza que o outro motorista vai mudar de faixa. Que um maluco vai cruzar o farol vermelho. Que um idiota vai ultrapassar pela direita. Que um motoqueiro vai sair do nada pra entrar debaixo do nosso carro. Que o caminhão estará em banguela na descida. Estamos sempre preparados para o pior. Quando batemos, não são “trombadas”. São colisões. Um amassado aqui, um arranhão ali, discussões, encheção de saco  – e a vida continua.

Pausa. Preciso colocar aqui um “existem exceções” que evitará que uns chatos me encham a caixa postal de emails repletos de “mas”.

Voltando ao tema: brasileiros sempre esperam pelo pior. Nossos processos e atitudes sempre têm uma “saída pela esquerda”. Sempre há um “colchão”. Guardamos sempre uma gordurinha para queimar, uma alternativa para adotar, uma saída de emergência. Nunca somos enxutos, definitivos ou focados em alvos milimétricos. Nossos alvos são grandes, podemos acertar no centro, nas margens… E assim vamos vivendo, com o famoso jogo de cintura que às vezes chamamos de “jeitinho”.

Quando damos de cara com um estadunidense, japonês ou alemão, é conflito na certa. Esses caras são “sharp”. Não têm margens para manobra. Quando têm, as margens fazem parte do plano. Os gringos têm uma expressão (“just in case”) que equivale ao nosso “vai que”, que eles usam para as exceções. Nós usamos como regra…

Vejo um pouco dessa nossa “flexibilidade” nos italianos, portugueses e latinos em geral. Mas no Brasil ela é meio de vida.

Portanto não é de estranhar que na tal crise global assistimos os EUA e a Europa entrando pelo cano desesperados enquanto aqui vamos levando a coisa com relativa calma. E, por favor, não venham me dizer que o mérito é do Lula. O mérito é de nossa direção defensiva. A gringalhada nunca se preparou para a crise. Nós nascemos nela. Vivemos com ela. Precisamos dela.

O que fazer? Manter o seguro em dia, os reflexos em forma e torcer para que o trânsito melhore. E nunca, jamais, cismar de dirigir aqui como os gringos fazem lá.

Nada disso garante que vamos escapar das trombadas. Mas ajuda para que sejam só trombadinhas.

Xi!…