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ARTE E COMÉRCIO

Luciano Pires

Li um texto delicioso de Oscar Wilde, em “A Alma do Homem Sob O Socialismo”, onde ele diz o seguinte:

“Um trabalho de arte é o resultado único de um temperamento único. Sua beleza vem do fato de o autor ser o que ele é. Nada tem a ver com o fato de outras pessoas quererem o que elas querem. No momento em que um artista percebe o que os outros querem, e tenta suprir a demanda, ele deixa de ser um artista e passa a ser um artesão, excelente ou medíocre. Deixa de ser um artista e passa a ser um homem de negócios, honesto ou desonesto”.

Escrito por Oscar Wilde em 1891…
É irresistível refletir sobre essa imagem do artista como um homem de negócios nos dias de hoje, quando os marqueteiros transformaram a produção cultural brasileira numa indústria baseada em pesquisas e focada em nivelar por baixo os produtos ditos “culturais” que cria e promove.
E dá-lhe as bandinhas de axé de acrílico, os pagodeiros derivados de petróleo, o funk de isopor, os livrinhos de auto-ajuda, os programinhas de tv focados na fofoca e nas celebridades e outras barbaridades… São produtos criados em laboratório por comerciantes, não por artistas, e trabalhados para suprir uma demanda que eles próprios criam.
Uma música na novela da Globo, repetida no Domingão do Faustão como sendo a “nova onda”, é capaz de lançar um modismo, de “suprir uma demanda” nacional e projetar um desconhecido, vazio de conteúdo, ao estrelato. É o artesão de Oscar Wilde, alguém que deixou de ser um artista para ser um comerciante.
Mas o problema não é assim tão simples. A engrenagem é complexa… E seus componentes estão no jogo sem compreender seus papéis. Os grandes formadores de opinião, confusos diante de uma postura “politicamente correta”, em que “dão ao povo o que o povo quer”, desempenham uma função crítica no processo. Dão às manifestações comerciais uma dimensão maior do que a merecida. Ao colocar em horário nobre uma entrevista com a funkeira desbocada, com a ex-prostituta que escreveu suas memórias, com o transformista que traiu o namorado, com a bandinha vazia, legitimam um produto que, do contrário, permaneceria restrito a um gueto, apagado pelo tempo. É a legitimação da mídia – jogando o jogo dos comerciantes – e não os atributos artísticos ou culturais, que acaba por criar uma demanda falsa, um sucesso mentiroso. Uma celebridade efêmera. Que nos seis meses de duração venderá dois milhões de cds… Para os trouxas que caíram na conversa.
Você já parou para pensar sobre o seu papel nessa engrenagem? Você é o agente da demanda. Você é a presa dos comerciantes. Você é o manipulado. É o seu “gosto médio” que os comerciantes estão determinando.
E já escrevi uma vez que “gosto médio” não tem gosto. O gosto que tem gosto é o SEU gosto. Seu tesouro. Único. Pessoal. Intransferível.  
Portanto, respeite o artesão. Respeite o comerciante.
Mas valorize seu gosto.
Só o entregue ao artista.