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Antigos Problemas

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Luciano Pires -

Outro daqueles artigos antigos que precisa ser lido, relido e trilido:

“Quem assegurará que, daqui a cinqüenta anos, ou mesmo no segundo centenário de nossa independência (2022), a situação da educação popular brasileira não seja ainda parecida com a de hoje? Mas, se tal acontecer, esperemos, para lisonjear a nossa vaidade e recompensar o nosso esforço, que as nossas memórias e as nossas campanhas sejam lembradas… por outros sonhadores… (que) irão, como nós, agora, revolver a poeira dos arquivos, os livros, os folhetos, e os jornais…”

Quem disse isso foi Antonio Carneiro Leão, educador, professor e escritor brasileiro, imortal da Academia Brasileira de Letras, preocupado com a melhoria do ensino no Brasil.

Recorri a esse texto após receber por e-mail o relato de uma professora de música de um colégio carioca de porte:

“Recebi de meu patrão a incumbência de dar aulas de Teatro e Artes Plásticas para a classe de alfabetização, além das de música. Diante de minha afirmação de que havia me formado em música, e não em teatro e artes plásticas, ouvi, por parte do diretor:´A gente confia em você!´, ´A gente sabe que você é capaz!´, ´É simples, faz uma colagenzinha ou dramatizaçãozinha com eles, nada demais´. Tentei negociar, mas não foi possível. Falei de minha formação, de minha falta de preparo para tal, mas parece que isso não importa muito. Não querem contratar outro, se há um que pode dar conta do serviço de três… Infelizmente, preciso do emprego, do dinheiro e sou obrigada a agir de forma um tanto desonesta com os profissionais das artes, com os próprios alunos e pais (que, sinceramente, não estão nem aí) e comigo mesma… De acordo com minhas possibilidades, estou correndo atrás de material que me dê uma base mínima e que me deixe um pouco menos insegura ao longo do ano. Fico imaginando até quando vou conseguir levar essa “mentira”… Já andei consultando amigos advogados que me disseram que a resposta a estes casos não costuma ser favorável, ou seja, dificilmente teríamos razão perante a lei. Fica difícil…”.

Pois é. O relato da professora mostra uma das faces do descaso com que a questão da educação é tratada no Brasil. Quando entrei no ginásio, no Instituto de Educação Ernesto Monte, no final dos anos 1960 em Bauru, fui da primeira turma que experimentou uma mudança importante. Era a introdução do conceito “pluricurricular”, uma tentativa de revolução na educação. Eu tinha aulas de marcenaria. Economia doméstica (numa cozinha!). Artes. Educação Sexual em salas de aula mistas! Uma loucura para aqueles anos de chumbo. Tão louca que acabou sucumbindo, entre outros problemas, ao viés ideológico que tomou conta do país em todos os setores. Ao longo do tempo e da discussão ideológica, aquela grade “pluricurricular” perdeu a força. Voltou um currículo tradicional, centrado nos conhecimentos técnicos e reforçado por uma sociedade cada vez mais competitiva, em que os temas “humanos” valem cada vez menos.

Depois de mais de 40 anos dessa visão torta, não é de se estranhar que os problemas brasileiros não sejam de matemática, história, geografia, física ou ciências. São das áreas humanas. São problemas éticos. Sociais. Comportamentais. São problemas que a matemática não resolve, a economia não entende e a ciência não explica. Problemas cujas raízes talvez tenham sido discutidas naquela aula babaca que você matou, lembra?

E repentinamente descobrimos que os alunos estão saindo das escolas formados pela metade, se tanto. Sem qualquer preparo para as “coisas da vida”, mas capazes de recitar o “pi” ao contrário…

Pois é. Sorte da professora de música do início deste texto. A visão curta dos dirigentes do tal colégio carioca a obrigou a estudar, a ampliar seus horizontes, a aprender sobre temas que ela desconhecia. Exatamente o que se devia proporcionar aos alunos.

Ah, a propósito. O texto de Antonio Carneiro Leão que abre este artigo foi escrito em 1923…

O Brasil não tem problemas novos.

Luciano Pires