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A síndrome do consenso

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Luciano Pires -

O Jornal Nacional teve em 2010 o menor índice de audiência dos últimos dez anos. Explicações ideológicas virão, mas não vou aqui focar no conteúdo político e ideológico do telejornal. Alô patrulheiros, entenderam? Não vou tratar aqui do conteúdo político e ideológico.  Tratarei de questões formais com base no que aprendi como palestrante: faltam erros no JN. Explico.

O JN é um telejornal extremamente bem acabado do ponto de vista estético. Soberbo. Reúne alguns dos melhores e mais experientes jornalistas brasileiros. É visível que cada fração de segundo é controlada. Tempos atrás o editor-chefe e apresentador Willian Bonner foi acusado de chamar os telespectadores do JN de “Hommers Simpsons”, em alusão ao personagem do desenho animado que é um sujeito medíocre. Foi um escândalo, Bonner se esmerou em esgrimar as palavras para tentar dizer que não era bem assim, mas sabemos que é assim. E aí está a pista para a queda do JN: a “Síndrome do Consenso”.

A Síndrome do Consenso é uma doença que acomete quem quer audiência cavalar (asinina deveria ser o termo): tem que agradar a gregos e troianos, tem que falar para o índio do Xingú, para a dona Maria de Nazaré das Farinhas e para o executivo da avenida Paulista. Então não pode ser erudito demais. Nem popular demais. Tira o sal, a pimenta… o tempero. Nivela até transformar em algo parecido com leite desnatado: aguado, sem gosto, sem graça. Sorrisos irônicos, expressões de medo, angústia, raiva ou indignação por parte dos apresentadores são proibidos por causa das patrulhas. Comentários pessoais então… 

E assim vemos uma coisa cada vez mais perfeita. E menos humana.

O surgimento em 2010 do Tiago Leifert, o garoto que revolucionou o jeito de apresentar o Globo Esporte, parece que não ensinou nada para a Globo. Muito diferente dos “mauricinhos” certinhos que o precederam, Tiago levou ao ar o espírito de um garotão – divertido, bonachão e irreverente. Imprevisível. Tremendo sucesso. O mesmo sucesso que fez o pessoal do Pânico quando encheu a tela de gente politicamente incorreta. O CQC foi na mesma linha. E se voltarmos no tempo, Chacrinha era assim. Faustão lá no Perdidos na Noite era assim. Quando surgiu, Ratinho era assim. Todos excessivos, escrachados, opiniáticos, não preocupados em ficar na média, sendo amados ou odiados, mas provocando e indignando.

Não acho que seja preciso ir a extremos, mas eu adoraria ver alguém de carne e osso, que faça xixi e cocô, apresentando o JN! Alguém que ri, chora e fica indignado. Alguém que erre! Que transmita a vibração do mundo real. To de saco cheio do bando de robôs lindos e desprovidos de sentimentos.

Pois é… Mas um ser humano com liberdade para verter lágrimas ou demonstrar ironia no comando do telejornal mais importante do Brasil agregaria uma carga de instabilidade e imprevisibilidade impossível de ser aceita pelos patrulheiros de plantão. Dentro e fora da Globo.  

Por isso não vi novidade quando soube que o JN perdeu um em cada quatro espectadores nos últimos dez anos. 

O JN não tolera erros. E quem não erra, humano não é.

Luciano Pires
PS: por favor, NÃO me mande emails comentando o posicionamento ideológico do JN. Esse não é o tema deste texto.