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Logo após o surgimento da União Soviética em 1922, Vladimir Lenin definiu os atributos das pessoas que poderiam ser apontadas para cargos de direção no governo soviético: confiabilidade, atitude política, qualificações profissionais e habilidade administrativa. E, evidentemente, filiação ao Partido Comunista. Assim, montava-se uma lista de candidatos que recebia o nome de Nomenklatura, do latim Nomenclatura, que quer dizer “lista de nomes”. Até os anos oitenta, quando Mikhail Gorbachev conduziu as reformas que implodiram a União Soviética, ser Nomenklatura significava pertencer a uma elite poderosa, que decidia em muitos casos até mesmo sobre a vida e morte das pessoas, e que gozava de benefícios com os quais o cidadão comum nem mesmo podia sonhar. A Nomenklatura era, assim, uma nova classe social, privilegiada, invejada, poderosa e organizada.

Para ascender dentro da Nomenklatura o indivíduo precisava ter um padrinho. Em retribuição, o promovido mantinha as políticas do padrinho. Essa relação de dependência dava à Nomenklatura a homogeneidade de adoção de regras que foi fundamental à manutenção da política de ferro e fogo da União Soviética.

A elite da Nomenklatura tinha abaixo de si os “apparatchik”, os “agentes do aparato”, indivíduos que desempenhavam tarefas burocráticas nos níveis mais baixos, de não liderança. Não eram pessoas especialmente habilidosas nas tarefas para as quais eram apontadas, pois suas nomeações atendiam interesses políticos. O resultado foi a caríssima, imensa, quase inexpugnável burocracia soviética, repleta de puxa-sacos e que, entre outros problemas, funcionava como um estado policial. “Cuidado com o que você diz. Seu vizinho pode ser um apparatchik e você vai dançar”. Naquela União Soviética, ser Nomenklatura ou apparatchik era dureza. Cair em desgraça era ser apagado da história. Literalmente.

Quando Gorbachev tentou reformar o estado, o castelo soviético ruiu, deixando viúvas por todo o mundo. Especialmente na América do Sul.

Bem, mas o que é que o mensalão tem a ver com isso? É simples. Troque “União Soviética” por “PT” e “soviético” por “petista”, e você verá que o modelo é o mesmo: uma elite de dirigentes cheia de privilégios, apadrinhamento, indicações políticas, apparatchik, burocracia e um estado cada vez mais gordo e ineficiente. Mas diferente da União Soviética de Lenin, Stálin, Krushev e Brezhnev, aqui os poderosos podem bastante, mas não podem tudo. Nas democracias existem outros poderes, existe ainda alguma liberdade, existe uma constituição.

E não é que membros importantes da Nomenklatura petista foram condenados à prisão? Vê-los de braço erguido e com o punho cerrado naquela famosa saudação socialista, deixou os apparatchiks assanhados, disparando para todos os lados. Mas eles deviam é estar comemorando. Tivessem sido condenados naquela União Soviética, ou Cuba, ou Coréia do Norte, provavelmente Dirceu, Genoíno e Delúbio seriam despachados para um Gulag. Ou fuzilados.

Mas aqui é o país tropical, do homem cordial. Logo mais estarão livres, leves e soltos, tratados como heróis da resistência e de volta à ação.

No Brasil, ser Nomenklatura é moleza.

Luciano Pires