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A ISO que nunca vem

A ISO que nunca vem

Luciano Pires -

Um daqueles textos que publiquei quase 10 anos atrás. Na época tomei porrada de todo lado, com o xingamento mais fraco sendo “elitista”. Vamos ver desta vez o que dá.

Se eu quiser exercer medicina, não posso. Preciso do diploma, obtido depois de pelo menos sete anos de estudo. Se eu quiser advogar, não posso. Preciso de diploma e exame da Ordem dos Advogados. Se eu quiser “engenheirar”, não posso. Preciso do diploma de engenheiro. Se eu quiser ser gari, não posso. Tenho que ter diplomas básicos e passar por um teste físico.

Mas se eu quiser ser vereador, deputado, senador ou presidente da república, posso. Ninguém me pede credenciais ou diplomas, nem mesmo testes físicos.

Daí o deprimente espetáculo que assistimos, protagonizado por atores que elegemos (ou não), vários deles falando um português sofrível, revelando valores morais questionáveis e praticando a política do balcão de trocas.

Pois tive uma idéia que nem original deve ser: a ISO Política.

A série ISO é uma família de padrões de gerenciamento da qualidade desenvolvidos em 1987. Um escritório central em Genebra coordena o sistema e publica os padrões que medem a qualidade dos sistemas de gerenciamento, em vez de produtos ou serviços específicos. A certificação ISO garante que a empresa tem um sistema de gerenciamento de qualidade adequado a atender os padrões internacionais. Para a sua certificação, as empresas devem comprovar aos auditores da ISO que documentaram criteriosamente os seus processos e seguem esse sistema de forma consistente. Muitos órgãos governamentais e empresas em todo o mundo exigem conformidade com padrões ISO em várias de suas compras. E de tempos em tempos as empresas têm que se recertificar, comprovando que mantêm os processos alinhados aos padrões.

A ISO é responsável por uma evolução sem precedentes do padrão de qualidade dos produtos e serviços brasileiros desde o início dos anos 90.

Então que tal criar uma ISO Política? Uma instituição como a Fundação Getúlio Vargas, por exemplo, desenvolveria os padrões para quem quer se dedicar a cargos públicos. Qualquer candidato a vereador, deputado, senador, etc. teria que se submeter aos auditores da ISO Política. E precisaria ter noções de política, economia, português, administração, ética, atendimento a clientes, leis, política…

E a ISO Política seria anunciada maciçamente. Um selo de qualidade.

Quem banca? Nós. Eu. Você. Com o maior gosto. O custo desse processo seria infinitamente menor que os prejuízos hoje causados pela incompetência dos ilustres representantes por nós eleitos.

Só voto em quem tem ISO.

É claro que o certificado não garante que o produto final seja exatamente aquele que o cliente deseja, e nem que o caráter do candidato seja idôneo. Mas garante que todo o processo é controlado e que a qualidade é consistente. Garante confiabilidade.

Confiabilidade… Exatamente aquilo que o diploma de médico, engenheiro e advogado representa.

Exatamente aquilo que anda em falta no país tropical.

Luciano Pires