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Luciano Pires -

Fiz uma série de programas discutindo a questão da maioridade penal e a área de comentários do site pegou fogo. Muita gente a favor e muita gente contra, debatendo um tema polêmico que sempre esquenta as discussões. Mas o que verdadeiramente me incomodou foi a quantidade de pessoas que não conseguem argumentar e apelam para o xingamento e desqualificação dos interlocutores.

É interessante, pois aparentemente todos querem o mesmo objetivo, uma sociedade mais justa, mais segura, mais harmoniosa. Mas ao divergir sobre os métodos para atingir o paraíso, colocam as pessoas em campos opostos, como adversários numa disputa. Isso se reflete imensamente na nossa (in)capacidade de resolver os problemas. Posso estar motivado na busca de uma solução, mas ao me deparar com um adversário todas as minhas energias serão canalizadas para o enfrentamento, para me defender das ofensas e ataques, ou atacar. E, no processo, acabo me afastando do objetivo inicial, reduzindo meu ímpeto para fazer acontecer, aumentando o tempo para a resolução dos problemas. Ou simplesmente desistindo.

Um amigo relatou uma imagem que representa muito bem a realidade atual. Somos dois perdidos no oceano, num barquinho. Cada um se atacando com o remo, tentando impor seu jeito de remar. Quando colocamos o remo na água, giramos em círculos, incapazes de remar na mesma direção. Quanto dispêndio de energia!

Observe os grandes temas que tem ocupado nossas discussões: homo x hetero, liberação das drogas, legalização do aborto, cotas raciais, índios, agronegócio, infaestrutura… Todos são discutidos em termos de vencedores e vencidos, duelos e batalhas, conflitos e disputas. Não existe a busca por cooperação. Nem me refiro a consenso, pelo perigo de mediocrização das soluções, mas à cooperação, à conciliação.

Esqueça. Parece que a única forma de discutir um assunto é juntar o contra e o a favor e gritar: sangue!!!!

No livro The Argument Culture da autora Debora Tannen, encontrei muitas explicações para esse estado das coisas. Ela define ali a “ética da agressão”: passamos a valorizar as táticas agressivas pelo prazer de discutir, de confrontar, especialmente se existir uma plateia. Os que buscam a conciliação são os bobos, os manés…

E quando a imprensa entra no jogo, colocando lenha na fogueira, rotulando, tirando frases do contexto e incentivando o confronto, o bicho pega de vez.

De acordo com Tannen, as relações humanas nos obrigam a encontrar maneiras de obter dos outros o que desejamos, sem parecer que os estamos dominando. Quando agimos como adversários, inimigos, é muito fácil criar uma tensão, uma antipatia, um ressentimento, que permanecerão vivos mesmo depois de resolvida a questão. Assim, da próxima vez que encontrar meu adversário, não perderei a chance de me vingar da derrota passada. E passarei a avaliar suas propostas não pelo mérito das ideias, mas pela intenção de derrotá-lo.

Ah, é isso que você está vendo por aí?

Pois é.

Luciano Pires