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A descoberta

A descoberta

Luciano Pires -

Após uma de minhas palestras, perguntaram como cheguei na posição de Diretor de uma grande empresa. Lembrei da lenda que conta que, saindo de Portugal com destino à Índia, Pedro Álvares Cabral acabou descobrindo o Brasil. De que terão servido os planos de navegação para aqueles aventureiros que acabaram chegando noutro continente?

Prefiro imaginar que serviram para motivar para a ação, que deram segurança aos homens para que se atirassem numa aventura com um risco de morte altíssimo. Para se atirar numa empreitada como essa, é necessária uma visão, um objetivo.

Mas hoje lidamos com montanhas de dados e informações e temos pouca gente com conhecimento, criatividade e coragem para tomar decisões.

O que mais vemos é o medo pela incerteza.

Uma pesquisa realizada em Londres na segunda guerra, quando a cidade era alvo das bombas alemãs, é reveladora. As bombas eram imprecisas e, embora tivessem como destino o centro de Londres, muitas vezes caiam nos bairros mais afastados. A pesquisa mostrou que as pessoas que viviam nos bairros afastados, onde as bombas caíam de vez em quando, apresentaram maior índice de distúrbios cardíacos que as pessoas que viviam no centro da cidade, onde sempre caíam as bombas. A incerteza era o problema…

Quando você tem um plano, mesmo que a bomba venha, você sente a segurança de estar no caminho mais seguro possível. Ou ao menos de ter tomado as providências possíveis. Sem um plano, sem saber onde você quer chegar, qualquer caminho serve, lembra do gato conversando com a Alice?

A resposta que dei àquela pergunta foi uma: tracei um plano, sim, para chegar a um Brasil que idealizei: aos 17 anos de idade eu queria ser um grande cartunista e escritor brasileiro. Estudei na área que me interessava, comunicação, me expus a situações, escolhi caminhos, me privei de prazeres e trabalhei como louco. E um dia percebi que não ia rolar. Que a vida como cartunista ou escritor seria difícil, eu estava recém-casado, sem grana, só com incertezas. Bolei então um plano estratégico: deixaria de lado, guardado, o sono de ser cartunista e escritor, e arrumaria emprego num grande empresa, onde eu tivesse a segurança de um salário mensal, férias, décimo terceiro e tudo mais. Ficaria na empresa por 3 ou 4 anos, tempo suficiente para eu amadurecer, guardar algum dinheiro e aprender como era a vida de casado. Então eu sairia da empresa e montaria meu próprio negócio, para viver do cartum e da escrita.

E assim fiz. E meu plano quase deu certo… Só não deu porque em vez de 4 anos, eu fiquei 26 anos na empresa. E 12 na função de diretor.

De repente lá estava eu, de terno e gravata, executivo de multinacional, viajando o mundo, tentando mostrar para os gringos que o Brasil era um país sério e ajudando a vender… autopeças.

Muito distante do sonho do escritor e cartunista.

Mas e aquele plano lá dos 17 anos de idade? Continuou ali, adormecido. E tudo que aprendi no caminho de me tornar um escritor e cartunista, me ajudou imensamente na carreira de executivo. Escrevi pra caramba, desenhei pra caramba, aprendi pra caramba. E quando em 2008 o destino quis que meu tempo na empresa se encerrasse, aos 52 anos, eu decidi sair da empresa. Fiz um acordo e no dia seguinte eu estava sentado em meu escritório, no Café Brasil Editorial, fazendo palestras, prestando consultoria e… escrevendo e desenhando.

Aos 17 anos de idade, como Cabral, eu fiz um plano: eu ia para o Brasil de meus sonhos.  Eu não sabia se chegaria no Rio Grande Sul, em Santos, na Bahia ou em Fortaleza. Mas sabia que chegaria ao Brasil que visualizei.

Foi aquele plano, traçado 43 anos atrás e adaptado conforme o tempo passava, que me trouxe até aqui.

Eu tinha um plano. Sem ele, em vez de Brasil, talvez eu tivesse chegado na Índia.

E você? Tem um plano?

Ou apenas esperanças?