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Seu bosta

Seu bosta

Luciano Pires -

Numa conversa com meu amigo Sandro Magaldi antes da gravação de mais um LíderCast, falávamos da empáfia que encontrávamos nos contatos com gente que trabalha em empresas badaladas e que “se acha”. Contei de uma experiência horrível ao ser recebido por duas garotas numa agência de publicidade, quando fui esnobado e quase humilhado ao tentar apresentar o podcast como uma opção de mídia. A única pergunta que me fizeram foi se havia comissão de agência.

Essas pessoas são uma espécie de Bozós da modernidade… Ops. Essa moçada não sabe quem foi o Bozó.

Mas a conversa foi legal, pois me fez lembrar de um texto que escrevi uns quatro ou cinco anos atrás e que publiquei apenas como um post no Facebook. Mas como a coisa está piorando, lá vai.

SEU BOSTA

Então sou chamado para uma reunião numa das maiores agências de propaganda do país. Aliás, do mundo. Badaladíssima, daquelas que ganham prêmios internacionais e publicam páginas quádruplas na Veja, sabe como é? Para impressionar, deixei de lado o lap top (lembre-se, este texto é de cinco anos atrás) e peguei meu iPad. Botei uma roupa mais, digamos, transada e fui pra reunião, pronto para arrasar. Cheguei, não havia onde estacionar. Procurei um estacionamento, deixei o carro e lá fui. Fiquei do lado de fora, na calçada, onde apertei um botão. Ouvi pelo interfone a voz do porteiro:

– Pois não?

– Eu gostaria de falar com o Fulano.

– Quem quer falar?

– Luciano Pires

– De que empresa? A que horas está marcada a reunião?

Respondi e ouvi:

– Aguarde um minuto, seu bosta.

Bem, na verdade o porteiro não falou aquele “seu bosta”, mas pela esnobação e entonação da voz foi isso que ele me fez entender. Alguns minutos depois ouvi o “clic” da porta e a voz do porteiro:

– Tá liberado. Vá por ali até a recepção. Seu bosta.

Bem, na verdade o porteiro não falou aquele “seu bosta”, mas pela esnobação e entonação da voz foi isso que ele me fez entender. Entrei num lugar todo transado. Penumbra, som ambiente, cores, móveis estranhos, até chegar a um balcão onde as recepcionistas, duas garotas lindas, com seus 23 anos de idade e roupas e cabelos da moda, conversavam. Elas estavam sentadas e eu em pé, mas tive a estranha sensação de que me olhavam de cima para baixo. Chamei pelo Fulano.

– É fulanô.

Tinha uma entonação diferente no nome do cara…

– Pode aguardar ali, seu bosta.

Bem, elas não disseram o “seu bosta”, mas pelo tom da voz, o olhar de enfado, narizinho lindo empinado e falta de sorrisos, foi o que me fizeram entender. Depois de examinar um móvel estranhíssimo, concluí que era uma poltrona. Sentei com cuidado, esperando que alguém me desse uma dura por sentar no camafeu do dono. Observei a sala de espera, que na verdade era uma área de circulação: paredes de vidro aqui, uma escultura estranha ali, uma escada transada acolá, uma pintura na parede alhures, um lustre extraterrestre, aquelas coisas caras, do tipo “tá vendo como eu sou criativo, seu bosta?”.

Ninguém apareceu, abri o iPad e fiquei aguardando o Fulanô. Minutos depois ele chega, um garoto com 26 anos de idade, cabelinho à Neymar e uma coisa no pé que não sei se era tênis ou coturno.

– Olá Luciano, estou esperando que instalem o computador na sala de reunião. Aguarde aí, seu bosta.

Bem, na verdade ele não disse “seu bosta”, mas pelo tom de voz… Continuei a examinar o lugar. Impressionante, espaçoso e com aquela arquitetura feita para diminuir a gente, que me lembrou uma igreja. Eu estava num templo, o templo da Igreja dos Santos do Monte de Grana de Todos os Dias.

Minutos depois o fulanô retorna e diz:

– Deu um problema lá na sala de reuniões e não dá pra subir. Tenho os arquivos aqui num pendrive. Dá pra ver aí ?

Não dava. IPads não têm entrada para pendrives. Era a primeira vez que eu ia a uma reunião sem meu lap top e o cliente me apresentava um pendrive que a bosta do iPad não lê!

Me senti um bosta.